na boa sorte
vim parar num lugar chamado boa sorte, cheio de água, água, água, eu que pedi pra me lavar. boa sorte fica entre montanhas, perto do sana, de lumiar, macaé, friburgo, sei lá. é mata atlântica, secundária. tem muito pasto e uma mil e oitocentas quedas d´água.
eu queria escrever uma carta que pudesse dizer como aqui é lindo e como eu bebo café do lado duma janela de vidro onde pintaram uma montanha e centas flores. e como tem cachoeira a cada setenta e nove passos de sobe e desce ladeira. vi um pássaro de um verde que eu nunca vi antes na natureza e vi também vaga-lumes brilhando feito as estrelas numa noite sem chuva. noite sem chuva parece raro aqui. tem tanta água, mas tanta! tudo que se toca é friozinho, bem úmido.
outro dia numa cachoeira tenho certeza que ouvi uma negra cantando e ela era escrava e tinha um sorriso pra lá de branco. depois veio um cachorro e avisou da chuva e fomos andando e olhando as coisas e eu vi tantas coisas, vi bromélias floridas e uma enorme árvore roxa e algumas velhas senhoras de nome vinhático. os meninos viram uma raposa no meio das muitas montanhas verdes inacreditáveis. é tudo tão lindo, que deve ser por isso que o sol não se põe nunca, a noite chega e ele lá, parece que vai ficar pra sempre.
a casinha baixa branca com verde, portinhas leves de madeira e muro de piçarra até um metro. chão de cimento queimado e tudo escondido no meio de um imenso jardim. essa carta, digo, essa casa tem tanta flor que é uma pena muito grande o meu nariz entupido (se a samarica estivesse aqui eu pediria pra me assoprar rapé). tudo é tão singelo, que até a maria-sem-vergonha aqui se chama maria-sapeca.
e o menino azur, nascido na rua estrela no rio comprido brinca de bola no vale do sol com seu amigo de cachos dourados, enquanto costuro e pinto os bonecos de pano.
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