só depois dela já deitada me ocorreu, realmente, que eu não sabia nada dela. não sabia, simplesmente.
não sabia quando se apaixonada pelo pai de seus filhos, se é que se apaixonara por ele um dia. onde foi o seu primeiro beijo, quem escolheu aquele vestido de casamento de mangas compridas, onde foi a lua-de-mel, se gostou ou se achou tudo muito esquisito.
não sabia se ele lhe eriçava os pêlos, se ele tinha casos, se ela tinha ciúme. se eles passeavam de mãos dadas na rua, se saíam pra dançar, se brigavam e gritavam um com o outro, se ela sempre engoliu tudo calada. se eram os filhos que faziam tudo valer, que emoção foi ter tantas crianças, como foi enterrar três deles. como era cozinhar pra todos todo dia?
eu não sabia nada, até aquele momento não sabia coisa alguma. sabia, claro, o que estava às claras: o seu silêncio, o seu meio sorriso, o seu prazer ao ver todos juntos tagarelando enquanto ela fingia atenção ao futebol. sabia que o ovo mexido dela era mole e eu tinha nojo, mas a minha irmã pequena sempre adorou. sabia que ela fazia a paçoca mais gostosa do mundo depois de bater a carne de sol naquele pilão imenso de madeira já coberta de cupins. lembrava daquele prato de trabalhador que ela me servia no almoço, e eu comia chorando esticando o estômago pra ela não me acusar de não ter gostado. ah, eu sabia as coisas que eu via e fotografava na cachola desde menina, isso eu sabia. mas se era fé o que a fazia seguir, se era amor, se seguiu feliz, sei lá.
se foi ela quem escolheu o nome das meninas, então ela era muito sabida, pois naquele dia ela lá deitada e fria, a rainha sincera soltou essa: "o que ela sentia, o que ela pensava, ela não dizia. isso tudo ela levou com ela, pra terra".
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