ele meteu aquelas mãos frias e suadas, nojentas, encima de mim e beijou-me avidamente, engolindo minha boca, babando-me, nojento. deixei que ele tirasse minha roupa num desespero apressado, e que olhasse meu corpo, por alguns instantes embevecido com as curvas reveladas diante de seus olhos e o seu corpo que nem se despia, de tão esfomeado. pôs pra fora aquele falo que sequer pode-se chamar ereto tamanho o nervosismo do china, que parecia nunca ter tido contato anterior com uma mulher, a não ser melecando as revistas que comprava escondido na banca mais recolhida do bairro.
ficou ali na mesma tentativa frenética diante das revistas, tentando animar seu brinquedo subutilizado, no desespero de não perder a chance de comer uma mulher de carne, bastante carne, e osso.
e foi assim que ele meteu aquele troço, pequeno e molenga, tão pequeno e tão molenga que em mim não surtiu efeito qualquer. que diferença isso faria pro china se as mulheres das revistas nunca tiveram qualquer reação e isso nunca foi motivo pra que as revistas não ficassem cheias de porra? importante é que o meu calor aqueceu o seu duvidoso pau, e isso o deixou mais louco de satisfação, finalmente estava comendo uma mulher de carne, muita carne, e osso. sua satisfação era tanta, que eu sequer precisaria me dar ao trabalho de fingir algum prazer para fazê-lo gozar mais rápido e acabar logo com aquele suplício.
eu me divertia com o patético da cena enquanto brincava de boneca inflável e estava muito contente por não precisar mais me dar ao trabalho de ser sexy, sedutora, a desejada mulher gostosa, malabarista na cama, só pra satisfazer alguém.
mapa do maravilhoso sexto ou eu e gió na feira.
as feiras cariocas sempre estiveram presentes em meu imaginário dos elementos encantatórios, não que não houvessem muitas outras feiras nas expedições por mim realizadas, mas a lembrança do colorido das frutas, legumes, hortaliças e carnes mortas sempre fez parte das memórias fluminenses, o que provocou um fetiche pelos carrinhos de metal que via as mulheres puxando no trajeto da feira.
(nunca ganhei o tal do carrinho, que já em coro com o espelho de corpo inteiro vira um mito no mundo dos meus desejos materiais).
na falta do carrinho, vou à feira puxando gió pelo braço, ela saltitante cantando "atirei o pau no gato" e eu de orelha em pé remendando a canção repetindo a última sílaba de cada estrofe ao mesmo tempo em que escolho o agrião mais verdinho, o pé de alface mais fresco, o hortelã mais perfumado, a batata graúda, a banana prata a preço de banana, que peixe terá menos espinha e será mais carnudo? namorado, anchova, corvina, xerelete? na minha terra esses moços não nadam...
ouço dizer que discutem uma lei proibindo os gritos na feira. mas, ora, se não são os gritos de feira que nos levam até a barraca do cajú mais fresco, os morangos mais vermelhos, o abacaxi docinho, a sardinha a preço de xêpa, as ofertas "moça não paga nem leva", "fiado só amanhã", "pra mocinha e promoção"?!
e aí você vira cliente de um e de outro, e ganha desconto e simpatia, sabe onde está a goma de tapioca mais fresca, o feijão verde mais verde, a beterraba mais doce, a macaxeira mais macia e todas as senhoras na feira querem me colocar no colo, e os senhores me chamam de menina, e a feira vira mais uma alegria de criança entretida com o movimento de gente, os gritos de feira, as cores, os cheiros, eu e gió de mãos dadas cantando "atirei o pau no gato", metendo a fuça sem medo de ter os perfumes das flores dentro de si.
(nunca ganhei o tal do carrinho, que já em coro com o espelho de corpo inteiro vira um mito no mundo dos meus desejos materiais).
na falta do carrinho, vou à feira puxando gió pelo braço, ela saltitante cantando "atirei o pau no gato" e eu de orelha em pé remendando a canção repetindo a última sílaba de cada estrofe ao mesmo tempo em que escolho o agrião mais verdinho, o pé de alface mais fresco, o hortelã mais perfumado, a batata graúda, a banana prata a preço de banana, que peixe terá menos espinha e será mais carnudo? namorado, anchova, corvina, xerelete? na minha terra esses moços não nadam...
ouço dizer que discutem uma lei proibindo os gritos na feira. mas, ora, se não são os gritos de feira que nos levam até a barraca do cajú mais fresco, os morangos mais vermelhos, o abacaxi docinho, a sardinha a preço de xêpa, as ofertas "moça não paga nem leva", "fiado só amanhã", "pra mocinha e promoção"?!
e aí você vira cliente de um e de outro, e ganha desconto e simpatia, sabe onde está a goma de tapioca mais fresca, o feijão verde mais verde, a beterraba mais doce, a macaxeira mais macia e todas as senhoras na feira querem me colocar no colo, e os senhores me chamam de menina, e a feira vira mais uma alegria de criança entretida com o movimento de gente, os gritos de feira, as cores, os cheiros, eu e gió de mãos dadas cantando "atirei o pau no gato", metendo a fuça sem medo de ter os perfumes das flores dentro de si.
boa nova dos campos.
papai escolheu meu nome de batismo muito antes de conceber a idéia de uma filha, inocentemente brincando de bonecas de pano com as irmãs caçulas. as bonecas eram costuradas por eles mesmos, imitando o trabalho da mãe na máquina de costura. mamãe, menina até no nome, vendo seu pai de lustrosos sapatos bicolores e a maletinha de novidades de caixeiro viajante, um dia juntou os trapos na mala de couro vermelho e partiu também. assim, fui gerada no florescer duma primavera carioca, as ruas estavam coloridas e o campo do são bento cheirava a flor.
canceriana que sou, carrego o signo da memória bem vivo, ouso dizer que ainda recordo os tons e o perfume das flores que a rua exalava e o ventre de minha mãe absorvia comigo lá dentro, pequeno serzinho ávido em reconhecer o mundo, a vida, os fatos, a quem tudo só se explica e significa pela emoção. tenho um dom de imaginar aquilo que sente o outro, e assim, portanto, abrigar a dor alheia e festejar as alegrias também. é algo sobre pegar no ar os sentimentos predominantes...
quando dói, escondo-me na minha matriz protetora, onde serão fecundados na escuridão, mergulhados no líquido fecundo, os pedaços que cato na memória, os sonhos, as imagens, aquilo que reunido irá me ajudar a redefinir e ambientar minha história e enfrentar as marés dos meus altos e baixos, minhas mudanças repentinas de humor, aparentemente sem motivo, em parte por estar sempre confundindo as coisas e muito por estar sempre desencantada com a vida, que não pode ser vivida na superfície, sem intensidade nem profundidade, mesmo o desamparo e as feridas.
é como se fosse preciso parar todo e qualquer movimento pra se envolver com os sentimentos mais íntimos ocultos, aqueles que passam despercebidos aos olhares desatentos, e então esmiuçar a dor, desvendando-a, desnudando-me para revelar, enfim, a luz a cor o som o perfume que vem na partida do mês de agosto...
canceriana que sou, carrego o signo da memória bem vivo, ouso dizer que ainda recordo os tons e o perfume das flores que a rua exalava e o ventre de minha mãe absorvia comigo lá dentro, pequeno serzinho ávido em reconhecer o mundo, a vida, os fatos, a quem tudo só se explica e significa pela emoção. tenho um dom de imaginar aquilo que sente o outro, e assim, portanto, abrigar a dor alheia e festejar as alegrias também. é algo sobre pegar no ar os sentimentos predominantes...
quando dói, escondo-me na minha matriz protetora, onde serão fecundados na escuridão, mergulhados no líquido fecundo, os pedaços que cato na memória, os sonhos, as imagens, aquilo que reunido irá me ajudar a redefinir e ambientar minha história e enfrentar as marés dos meus altos e baixos, minhas mudanças repentinas de humor, aparentemente sem motivo, em parte por estar sempre confundindo as coisas e muito por estar sempre desencantada com a vida, que não pode ser vivida na superfície, sem intensidade nem profundidade, mesmo o desamparo e as feridas.
é como se fosse preciso parar todo e qualquer movimento pra se envolver com os sentimentos mais íntimos ocultos, aqueles que passam despercebidos aos olhares desatentos, e então esmiuçar a dor, desvendando-a, desnudando-me para revelar, enfim, a luz a cor o som o perfume que vem na partida do mês de agosto...
mapa da maravilhoso quinto.
o morro do são roque é um pequeno e discreto lugarejo por onde moradores e afins circulam, já que ele não dá passagem nem encurta caminhos. a ladeira de calçamento de pedra, casas de arquitetura colonial e uma quantidade notável de velhos portugueses abrigados no local, fiéis da igreja de são roque que fica lá encima, avistando o porto do rio. a simpatia e tranqüilidade do morro me faz esquecer que estou numa metrópole. aqui ouve-se pássaros e o som do vento - quando há - nas folhas das árvores.
minha casa foi achada durante um passeio ao acaso. vim vê-la e não houve como não destacar-se diante das possibilidades que vinha avaliando em outros lugares minúsculos, sombrios, sem vista pro céu nem ar familiar. embora muito miúda, a casa me cativou de cara. ela tem uma micro área de serviço onde leio à tarde na espreguiçadeira e admiro as poucas plantinhas que couberam no espaço. tudo é compacto: a cozinha, o banheiro, a sala e o quarto me fizeram dispensar alguns dos móveis mais espaçosos. mas o amarelinho das paredes e a cerâmica novinha é aconchegante e o meu jeito de organizar e enfeitar a casa deixaram-na com minha cara, que é muito bonita, claro.
gosto do são roque, gosto dessa casa, de cozinhar, de conversar com as plantas, de deitar na espreguiçadeira e espiar o céu, gosto até mesmo de ver novela no fim do dia antes de dormir e me sinto presenteada por isso.
a vida tem sim, muitas cores bonitas. esse morro, a minha casa, a minha mobília, a minha cozinha, esse bairro gostoso, fazer o vestibular depois de dez anos formada no segundo grau e saber que fui melhor do que gente que está se preparando há mais tempo que eu, o carinho de vó eunice, os agrados da minha alba, cair na simpatia dos novos conhecidos e a possibilidade de traçar novas rotas por mim mesma me contenta.
manter os olhos e os sentidos bem atentos aos novos traços formando paisagens no meu caminho, conhecer outras pessoas, outros hábitos, outras formas de pensar e expressar. essa coisa de haver novidade em todas as coisas e o meu olhar de turista diante delas... tem um brilho!
minha casa foi achada durante um passeio ao acaso. vim vê-la e não houve como não destacar-se diante das possibilidades que vinha avaliando em outros lugares minúsculos, sombrios, sem vista pro céu nem ar familiar. embora muito miúda, a casa me cativou de cara. ela tem uma micro área de serviço onde leio à tarde na espreguiçadeira e admiro as poucas plantinhas que couberam no espaço. tudo é compacto: a cozinha, o banheiro, a sala e o quarto me fizeram dispensar alguns dos móveis mais espaçosos. mas o amarelinho das paredes e a cerâmica novinha é aconchegante e o meu jeito de organizar e enfeitar a casa deixaram-na com minha cara, que é muito bonita, claro.
gosto do são roque, gosto dessa casa, de cozinhar, de conversar com as plantas, de deitar na espreguiçadeira e espiar o céu, gosto até mesmo de ver novela no fim do dia antes de dormir e me sinto presenteada por isso.
a vida tem sim, muitas cores bonitas. esse morro, a minha casa, a minha mobília, a minha cozinha, esse bairro gostoso, fazer o vestibular depois de dez anos formada no segundo grau e saber que fui melhor do que gente que está se preparando há mais tempo que eu, o carinho de vó eunice, os agrados da minha alba, cair na simpatia dos novos conhecidos e a possibilidade de traçar novas rotas por mim mesma me contenta.
manter os olhos e os sentidos bem atentos aos novos traços formando paisagens no meu caminho, conhecer outras pessoas, outros hábitos, outras formas de pensar e expressar. essa coisa de haver novidade em todas as coisas e o meu olhar de turista diante delas... tem um brilho!
mapa do maravilhoso quarto.
são cristóvão é um bairro sem o fricote da zona sul e, ao mesmo tempo, sem a tensão da zona norte. foi, durante o reinado, a morada da aristocracia estrangeira que ergueu, ou melhor, escravizou uns pretos que erguessem seus castelos e casarões com toda a pompa.
competia com botafogo no quesito "área residencial dos ab(e)astados", tirando vantagem por ser melhor servido nos sistemas de abastecimento de água e esgoto.
veio depois o governo republicano, tomando de são cristóvão o status de abrigo da realeza, e o novo modo administrativo trouxe também novos conceitos de urbanidade e princípios estéticos e o mar passou a ser a menina dos olhos da gente endinheirada, que se deslocou para a pitoresca copa/cabana.
com a expansão das atividades industriais, o bairro de são cristóvão passou a ser objeto de desejo dos donos das fábricas, já que tinha uma infra-estrutura favorável, além da proximidade aos eixos ferroviários e aos portos da cidade, e o fácil acesso ao centro da cidade. os luxuosos casarões do bairro imperial passaram a ser ocupados pelas indústrias, em sua maioria do ramo de perfumaria, velas e indústria têxtil.
e assim, são cristóvão é hoje um bairro popular de arquitetura colonial e como o povo não gosta mesmo de povo, chamam o bichinho de bairro decadente, fato do qual a especulação imobiliária - sempre ela - anda se aproveitando com o discurso de "revitalização" da morada imperial. não que eles estejam fazendo uma boa maquiagem nos importantes pontos de lazer do bairro, como a quinta da boa vista, o museu de astronomia, o campo de são cristóvão, ou o museu da marquesa de sade, digo, de santos, mas sim construindo - ca-la-ro - imensos arranha-céus pro povo morar trepado.
contudo, eu gosto dessa morada por demais. sinto-me segura para andar sozinha nas ruas a qualquer horário do dia ou da noite, e me aproveito disso pra admirar os muitos cenários que o lugar oferece, desde as moçoilas a caminho da escola com suas curtas saias de prega e as coxas durinhas à mostra, até as esquinas com os sempre curiosos despachos, a escuridão do ponto de prostituição, os jovens marginalizados do campo, até o china que vende pastel e me chama de "saladinha" (passem meia hora pensando e entendam o porquê).
também é aqui que começa meu feliz processo de ressocialização com uma geração que me levanta a orelha e me inspira curiosidade, os vestibulandos do cursinho da igreja de santa edwiges. também é aqui a morada da minha sogra e da minha vogra, assunto pra mais cem mapas do maravilhoso do rio de janeiro.
e o principal: o morro do são roque, o santo do joelhinho à mostra, morro que guarda a minha morada, local aberto a visitações gratuitas e tema do próximo mapa...
competia com botafogo no quesito "área residencial dos ab(e)astados", tirando vantagem por ser melhor servido nos sistemas de abastecimento de água e esgoto.
veio depois o governo republicano, tomando de são cristóvão o status de abrigo da realeza, e o novo modo administrativo trouxe também novos conceitos de urbanidade e princípios estéticos e o mar passou a ser a menina dos olhos da gente endinheirada, que se deslocou para a pitoresca copa/cabana.
com a expansão das atividades industriais, o bairro de são cristóvão passou a ser objeto de desejo dos donos das fábricas, já que tinha uma infra-estrutura favorável, além da proximidade aos eixos ferroviários e aos portos da cidade, e o fácil acesso ao centro da cidade. os luxuosos casarões do bairro imperial passaram a ser ocupados pelas indústrias, em sua maioria do ramo de perfumaria, velas e indústria têxtil.
e assim, são cristóvão é hoje um bairro popular de arquitetura colonial e como o povo não gosta mesmo de povo, chamam o bichinho de bairro decadente, fato do qual a especulação imobiliária - sempre ela - anda se aproveitando com o discurso de "revitalização" da morada imperial. não que eles estejam fazendo uma boa maquiagem nos importantes pontos de lazer do bairro, como a quinta da boa vista, o museu de astronomia, o campo de são cristóvão, ou o museu da marquesa de sade, digo, de santos, mas sim construindo - ca-la-ro - imensos arranha-céus pro povo morar trepado.
contudo, eu gosto dessa morada por demais. sinto-me segura para andar sozinha nas ruas a qualquer horário do dia ou da noite, e me aproveito disso pra admirar os muitos cenários que o lugar oferece, desde as moçoilas a caminho da escola com suas curtas saias de prega e as coxas durinhas à mostra, até as esquinas com os sempre curiosos despachos, a escuridão do ponto de prostituição, os jovens marginalizados do campo, até o china que vende pastel e me chama de "saladinha" (passem meia hora pensando e entendam o porquê).
também é aqui que começa meu feliz processo de ressocialização com uma geração que me levanta a orelha e me inspira curiosidade, os vestibulandos do cursinho da igreja de santa edwiges. também é aqui a morada da minha sogra e da minha vogra, assunto pra mais cem mapas do maravilhoso do rio de janeiro.
e o principal: o morro do são roque, o santo do joelhinho à mostra, morro que guarda a minha morada, local aberto a visitações gratuitas e tema do próximo mapa...
o sétimo dia primeiro.
acho o domingo uma delícia do café da manhã até a hora da ceia.
aos domingos, as famílias se reúnem. vão à missa, fingem ouvir o sermão, e aproveitam a hora da paz de cristo pra se abraçarem. usam a toalha xadrez no gramado e se fartam no pique-nique. as crianças correm no parque e com sol, lambuzam-se de picolé. há sempre um voluntário pra colocar a carne do churrascão no fogo. e sempre um outro bem disposto a fazer as vezes de garçom só pra ter o prazer de embriagar os filhos alheios... tem sempre a hora de sentar à mesa pra cutucar com vara curta a vida dos outros. também a hora da sobremesa pra perguntar quem foi que fez aquela maravilha de torta de morango suculenta. "ah, foi a dona regina, foi? mas essa dona regina tem mesmo mãos de fada"...
aos domingos tem sempre alguém indo beijar a mãe, pedir a benção da avó, fazer alguma visita de caridade à tia que não anda lá muito bem das pernas. tem sempre uma reunião de cunhados, co-cunhados, agregados e vizinhos saboreando uma água que passarinho não bebe, discutindo um futebolzinho. meus tios se reuniam bem cedo na garagem do prédio, punham uma tevê encima da mesa de carretel de obra e ficavam bebericando e babando o ayrton senna do brasil sil sil.
no domingo tem sempre uma galera levando a farofa pra passar o dia na praia, as crianças nunca mais querem sair de dentro do mar, as mulheres passando óleo pra fritar e os homens, com maré seca, jogam, é claro, o futebolzinho. e até praqueles que têm o domingo como o dia da faxina, que seja pelo menos com o pagodão no volume mais alto. e as ruas esvaziadas permitem os passeios de bicicleta, e onde tem uma piscina tem criança dando mil saltos mortais e outros nem tanto.
um domingo de sol é uma alegria, é uma festa, as famílias se reúnem, cada grupo a seu modo, e se reabastecem pro rojão da semana.
eu, no entanto, em nome do velho testamento, vocês sabem, fico em casa o dia inteiro em repouso pensando nisso tudo e esperando que o telefone toque...
aos domingos, as famílias se reúnem. vão à missa, fingem ouvir o sermão, e aproveitam a hora da paz de cristo pra se abraçarem. usam a toalha xadrez no gramado e se fartam no pique-nique. as crianças correm no parque e com sol, lambuzam-se de picolé. há sempre um voluntário pra colocar a carne do churrascão no fogo. e sempre um outro bem disposto a fazer as vezes de garçom só pra ter o prazer de embriagar os filhos alheios... tem sempre a hora de sentar à mesa pra cutucar com vara curta a vida dos outros. também a hora da sobremesa pra perguntar quem foi que fez aquela maravilha de torta de morango suculenta. "ah, foi a dona regina, foi? mas essa dona regina tem mesmo mãos de fada"...
aos domingos tem sempre alguém indo beijar a mãe, pedir a benção da avó, fazer alguma visita de caridade à tia que não anda lá muito bem das pernas. tem sempre uma reunião de cunhados, co-cunhados, agregados e vizinhos saboreando uma água que passarinho não bebe, discutindo um futebolzinho. meus tios se reuniam bem cedo na garagem do prédio, punham uma tevê encima da mesa de carretel de obra e ficavam bebericando e babando o ayrton senna do brasil sil sil.
no domingo tem sempre uma galera levando a farofa pra passar o dia na praia, as crianças nunca mais querem sair de dentro do mar, as mulheres passando óleo pra fritar e os homens, com maré seca, jogam, é claro, o futebolzinho. e até praqueles que têm o domingo como o dia da faxina, que seja pelo menos com o pagodão no volume mais alto. e as ruas esvaziadas permitem os passeios de bicicleta, e onde tem uma piscina tem criança dando mil saltos mortais e outros nem tanto.
um domingo de sol é uma alegria, é uma festa, as famílias se reúnem, cada grupo a seu modo, e se reabastecem pro rojão da semana.
eu, no entanto, em nome do velho testamento, vocês sabem, fico em casa o dia inteiro em repouso pensando nisso tudo e esperando que o telefone toque...
parto natural.
no final da tarde, as crianças com seus tutores e bonecos vão passear na quinta da boa vista. elas são conduzidas pela mão, ou pelo carrinho, para ver os gatinhos, os au-au, os passarinhos, os outros nenéns. a quinta é, como seu próprio nome diz, uma boa vista. lá esses pequenos interagem sem cerimônia, já que as crianças não precisam de cerimônia pra isso. e aprendem a perceber coisas como o vento nas folhas das árvores, o verde das folhas das árvores, os frutos pendurados nas árvores, os pássaros beliscando os frutos pendurados nas árvores, e a cantoria deles e delas, sua magnitude, enfim...
[claro está que sequer imaginam os montes extintos que dali se avistava num tempo longíquo onde ninguém falava em reforma urbana ou especulação imobiliária, nem vendo aquelas águas moribundas suspeitam que ali corriam águas caudalosas - poupemos os inocentes].
poupemos os inocentes e os deixemos com suas descobertas: sugar alimento no peito, sentar-se, erguer-se de pé, dar os primeiros passos trôpegos feito pingüins. puxar os cabelos do outro. e apanhar desse outro e entender que dói e aprender a não querer a dor. admirar-se da própria fala e articular palavras... "mãmã"...
na quinta da boa vista, quando se aproxima o crepúsculo, as crianças aprendem mais do mundo e praticam seu direito inalienável de apreendê-lo, sem saber que depois tal direito lhes será tomado.
assim sendo, atenho-me a contemplar o cenário. mulheres e mães carregam seus filhos pela mão ou presos contra o peito ignorando - quem sabe - que aquele pedaço de gente, aquela ponta de carne sua, com suas feições e imitando seus passos, são a mais bela chance de continuar as coisas...
[o sol se põe e então eu, feito sombra, me despedaço, faleço].
[claro está que sequer imaginam os montes extintos que dali se avistava num tempo longíquo onde ninguém falava em reforma urbana ou especulação imobiliária, nem vendo aquelas águas moribundas suspeitam que ali corriam águas caudalosas - poupemos os inocentes].
poupemos os inocentes e os deixemos com suas descobertas: sugar alimento no peito, sentar-se, erguer-se de pé, dar os primeiros passos trôpegos feito pingüins. puxar os cabelos do outro. e apanhar desse outro e entender que dói e aprender a não querer a dor. admirar-se da própria fala e articular palavras... "mãmã"...
na quinta da boa vista, quando se aproxima o crepúsculo, as crianças aprendem mais do mundo e praticam seu direito inalienável de apreendê-lo, sem saber que depois tal direito lhes será tomado.
assim sendo, atenho-me a contemplar o cenário. mulheres e mães carregam seus filhos pela mão ou presos contra o peito ignorando - quem sabe - que aquele pedaço de gente, aquela ponta de carne sua, com suas feições e imitando seus passos, são a mais bela chance de continuar as coisas...
[o sol se põe e então eu, feito sombra, me despedaço, faleço].
céu, cegueira e queda
lembrasse teresa das asas que thomas lhe deixara...
... ganharia o céu com o dédalo. não com ícaro, que aquele era uma porta e nem parecia levar consigo qualquer herança genética do pai. imagine só: tudo o que ícaro teve de fazer além de catar uns centos de penas distintas, era acompanhar o vôo do pai, sem descer muito pra não umedecer as penas, pesando-as no fundo do mar egeu; sem subir muito e deixar que o sol derretesse a cêra soltando-as.
é certo que dédalo só teve essa idéia brilhante de ganhar o céu por uma questão de necessidade de fuga pela tangente. porém é certo também que só se meteu nessa roubada por conta do labirinto onde encurralou minotauro. verdade que traiu o rei, mas rei nenhum merece fidelidade. e além de tudo fez isso por teseu e ariadne, que é uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci na vida. mais: fez isso em nome do amor.
mas teresa sempre meio cega só via a juventude e beleza de ícaro, simplório, tolo e vaidoso...
... ganharia o céu com o dédalo. não com ícaro, que aquele era uma porta e nem parecia levar consigo qualquer herança genética do pai. imagine só: tudo o que ícaro teve de fazer além de catar uns centos de penas distintas, era acompanhar o vôo do pai, sem descer muito pra não umedecer as penas, pesando-as no fundo do mar egeu; sem subir muito e deixar que o sol derretesse a cêra soltando-as.
é certo que dédalo só teve essa idéia brilhante de ganhar o céu por uma questão de necessidade de fuga pela tangente. porém é certo também que só se meteu nessa roubada por conta do labirinto onde encurralou minotauro. verdade que traiu o rei, mas rei nenhum merece fidelidade. e além de tudo fez isso por teseu e ariadne, que é uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci na vida. mais: fez isso em nome do amor.
mas teresa sempre meio cega só via a juventude e beleza de ícaro, simplório, tolo e vaidoso...
pelo amor de kundera
teresa sente ciúme. não se conforma, não aceita o fato de tê-la deixado. embora já faça um bom tempo, desde quando nos conhecemos naquele agosto seco, tinham se deixado.
decerto o que a fere de fato é saber-lhe incapaz de amá-la, somente a ela. que viva por outras desejo, que se apaixone mil vezes, que toque e que cheire outras fêmeas, não! não tolera. como se isso pusesse à prova o seu sentimento por ela.
e agora por essa ele pode sacrificar um cavalo e atravessar quatro léguas e molestar um velho. por cinco minutos, apenas? como pôde?
eu mesma já amargurei tudo isso depois do dia em que vi sua aliança de côco. então me deixa viúva, ergue-se do caixão serelepe por aí pronto pra começar de novo, com outra? como pôde?
teresa se esquece de lembrar que fôra ela própria a buscar as vestes pretas no armário cheio de mofo. fechou os olhos e empurrou a porta do caixão sem antes olhar dentro nem jogar rosas vermelhas. enterrou mal enterrado só pra poder esperar o vento trazer o mau cheiro e maldizer-se. fôra ela própria. talvez porque ache bonita a cor da melancolia, por achar elegante carregar uma dor. talvez por ter lido os contos e um desejo de princesa a inspire a ficar por ali do alto do castelo cortando os cabelos pra que nunca dêem tranças.
mas e quem haveria de querer escalar suas tranças e ilhar-se no alto da torre com ela? teresa sabe e desfia todo o cabelo na tesoura que é pra não ter certeza. teresa não quer ter certeza e pra isso prefere o mau cheiro do defunto mal enterrado, deixando as coisas pelo meio.
lembrasse teresa das asas que thomás lhe deixara...
decerto o que a fere de fato é saber-lhe incapaz de amá-la, somente a ela. que viva por outras desejo, que se apaixone mil vezes, que toque e que cheire outras fêmeas, não! não tolera. como se isso pusesse à prova o seu sentimento por ela.
e agora por essa ele pode sacrificar um cavalo e atravessar quatro léguas e molestar um velho. por cinco minutos, apenas? como pôde?
eu mesma já amargurei tudo isso depois do dia em que vi sua aliança de côco. então me deixa viúva, ergue-se do caixão serelepe por aí pronto pra começar de novo, com outra? como pôde?
teresa se esquece de lembrar que fôra ela própria a buscar as vestes pretas no armário cheio de mofo. fechou os olhos e empurrou a porta do caixão sem antes olhar dentro nem jogar rosas vermelhas. enterrou mal enterrado só pra poder esperar o vento trazer o mau cheiro e maldizer-se. fôra ela própria. talvez porque ache bonita a cor da melancolia, por achar elegante carregar uma dor. talvez por ter lido os contos e um desejo de princesa a inspire a ficar por ali do alto do castelo cortando os cabelos pra que nunca dêem tranças.
mas e quem haveria de querer escalar suas tranças e ilhar-se no alto da torre com ela? teresa sabe e desfia todo o cabelo na tesoura que é pra não ter certeza. teresa não quer ter certeza e pra isso prefere o mau cheiro do defunto mal enterrado, deixando as coisas pelo meio.
lembrasse teresa das asas que thomás lhe deixara...
mapa do maravilhoso terceiro
na rua dos inválidos, no chão cinza de cimento úmido e fétido, a fotografia duma zebra.
se é sexta-cheira a uruguaiana se entope de mesas, cadeiras, churrasquinho de gato e o funk aos berros. panos estendidos no chão ofertam uma variedade incrível de produtos pra todos os gostos e carências, desde filmes pornográficos a cedês de programas piratas de informática, mimosas roupinhas de crianças, brinquedos plásticos a utensílios de cozinha. fico imaginando papai passando ali no fim do expediente, e escolhendo o mimo pra levar no bolso pras crianças em casa...
homens de terno e mochila - coisa que o júlio considera uma breguice, mas que o castañeda aprova por completo, pois um homem atento não mantém as mãos ocupadas, e os rapazes vigiando as bocas de lobo a espera de alguma moça distraída de saia.
o carro-pipa desperdiça incontáveis litros d´água na calçada afim de espantar o mau cheiro do centro da cidade, que se mistura com os perfumes baratos, o camarão no espeto, o bolo de aipim frito, os suvacos suados das pessoas, a urina impregnada nos becos, acúmulo de merda nas praças que sempre parecem vazias, pois quem enxerga os mendigos enrolados em edredons?
se é sexta-cheira a uruguaiana se entope de mesas, cadeiras, churrasquinho de gato e o funk aos berros. panos estendidos no chão ofertam uma variedade incrível de produtos pra todos os gostos e carências, desde filmes pornográficos a cedês de programas piratas de informática, mimosas roupinhas de crianças, brinquedos plásticos a utensílios de cozinha. fico imaginando papai passando ali no fim do expediente, e escolhendo o mimo pra levar no bolso pras crianças em casa...
homens de terno e mochila - coisa que o júlio considera uma breguice, mas que o castañeda aprova por completo, pois um homem atento não mantém as mãos ocupadas, e os rapazes vigiando as bocas de lobo a espera de alguma moça distraída de saia.
o carro-pipa desperdiça incontáveis litros d´água na calçada afim de espantar o mau cheiro do centro da cidade, que se mistura com os perfumes baratos, o camarão no espeto, o bolo de aipim frito, os suvacos suados das pessoas, a urina impregnada nos becos, acúmulo de merda nas praças que sempre parecem vazias, pois quem enxerga os mendigos enrolados em edredons?
mapa do maravilhoso segundo
a bordo dum ônibus niteroiense ignorando o ignorável: noite fla X flu no maracanã. após visitar ilustre figura cara (e rara, portanto). e portanto feliz a ponto de não alimentar qualquer revolta no coração ouvindo a cantoria dos jovens torcedores urubuenses berrando escrotices, a caráter.
enfim. uma noite fla X flu no maracanã é uma tentação aos curiosos, ignorei o ponto de descida da subida de casa e me deixei levar afim de bilar a bilheteria do estádio. o ônibus levou 40 minutos pra percorrer um único quilômetro, carro e gente engarrafados, feito gado. de repente eu vejo um rapaz imenso correndo na minha direção, pronto prum golpe: tava afim de arrancar o couro do pobre menino adolescente que ia na sua inocência olhando a paisagem exibindo sua touquinha do fluminense. impedido por algum sensato colega que o puxou pelo braço no momento do golpe, o alvoroço no ônibus foi se esvaindo, os flamenguistas rareando, os tricolores crescendo, o prédio feio, quadrado, cinza, com aparência de presídio, a uerj.
desci, caminhei, cheiro de mijo, escuridão nas ruas, no ponto do ônibus um papoco do poste acima de minha cabeça: centelhas, fagulhas, chispas, lampejos no ar...
enfim. uma noite fla X flu no maracanã é uma tentação aos curiosos, ignorei o ponto de descida da subida de casa e me deixei levar afim de bilar a bilheteria do estádio. o ônibus levou 40 minutos pra percorrer um único quilômetro, carro e gente engarrafados, feito gado. de repente eu vejo um rapaz imenso correndo na minha direção, pronto prum golpe: tava afim de arrancar o couro do pobre menino adolescente que ia na sua inocência olhando a paisagem exibindo sua touquinha do fluminense. impedido por algum sensato colega que o puxou pelo braço no momento do golpe, o alvoroço no ônibus foi se esvaindo, os flamenguistas rareando, os tricolores crescendo, o prédio feio, quadrado, cinza, com aparência de presídio, a uerj.
desci, caminhei, cheiro de mijo, escuridão nas ruas, no ponto do ônibus um papoco do poste acima de minha cabeça: centelhas, fagulhas, chispas, lampejos no ar...
mapa do maravilhoso primeiro
teresa era o nome da minha gata. não que tenha morrido aquela danada, e embora continue a vê-la caminhando pelos cantos das paredes de casa, afastei-a de minha vida, de meu caminho, afastei-a inclusive de minhas lembranças de modo que teresa agora é pra mim a rua, o morro, o encantador calçamento de pedra, os úmidos muros dos casarões arborizados, o bondinho amarelo e azul, as casinhas nas encostas, os largos, o primeira estrela apontando no mirante depois do curvelo, a cerveja cara nos bares estrategicamente confortáveis aos olhos, o velho ritual dos pseudo-poetas-caça-níqueis, ladeiras, grafites nos muros, o 406 com ar-condicionado e o meu encontro com krishna, azul...
Assinar:
Postagens (Atom)