aquele homem do guimarães rosa...
aquele! aquele doido que inventou de viver o resto da vida no meio do rio. no meio do rio! nem de um lado, nem de outro, o cara foi viver bem no meio do rio. e deixou tudo, viu? deixou tudo sem a menor explicação, a casa, a mulher, os três filhos que fez, deixou todos. e foi viver lá, na sua canoa de pau vinhático - aquela árvore gigante que o peter me apresentou em boa sorte - e ficou lá debaixo de sol, debaixo de chuva, com vento e sem vento, vendo o tempo passar e só.
o que diabos aquele homem foi fazer ali sozinho acho que nem o guimarães rosa entendeu, mas o que todo mundo acha é que ali num era lugar prum homem de bom juízo viver.
foi por isso que chamaram o padre, o pastor, o prefeito, o jornal, chamaram foi tudo mas o homem nem se moveu! ele estava decidido a ficar ali, bem no meio do rio, nem de um lado nem de outro, como se o meio fosse lugar pra se ficar. embora todos discordassem, o meio do rio foi justo o lugar que o homem escolheu pra ficar e ele estava muito bem decidido.
indeciso na história foi o seu menino caçula, que foi quem preparou e deixou uma marmita pro pai à beira do rio todos os dias de todos os anos que ele viveu ali, mas na hora que disse que ía ficar no lugar do pai, já velho, saiu foi correndo. ora, mas e alguém pode julgar o pobre do filho que num sabia nem o que diabos de raio de cargas d´água o pai tinha ido fazer no meio daquele rio desde quando ele era pequeno, pequeninho? é claro que o filho nunca entendeu nada, mas se era o pai que tinha decidido aquilo não era ele o filho quem iria contestar e ficou ali sem entender nada, vendo a mãe pobre coitada definhar a amargura de ver seu homem bem nas vistas, lá no meio do rio, nem foi embora de fato nem estava mais com ela em casa, coitada, aquilo era uma humilhação.
foi por isso que ela se mandou quando a irmã do filho fez o convite. a irmã do filho também estava danada da vida porque foi mostrar o filho dela, o neto, pro pai lá na beira do rio e gritou, gritou, se esgoelou pelo pai, mas quem disse? ele não apareceu nem pra olhar de longe o netinho que a filha veio mostrar.
o filho não entendia nada, só continuava indo lá todo dia botar uma comidinha na beira do rio pro pai. mas é claro que a vida todinha ele carregou todas aquelas interrogações de porquê diabos de raio de cargas d´água o pai inventou de ir viver numa canoa bem no meio do rio, como se o meio fosse lugar pra se ficar.
se ele tivesse ido embora com a mulher do circo como fez o irmão do filho, era porque estava apaixonado, e paixão a gente entende, não há quem resista. sei não... se tivesse feito uma trouxa e saído andando por aí, pelo menos ía pralgum canto enquanto passava o tempo, o vento, o sol, as nuvens, a chuva, isso tudo. mas não adianta levantar hipótese, pois o fato é que o homem decidiu mesmo foi passar os minutos, as horas, os dias e os anos bem ali sentado na canoa no meio do rio.
mas menino como é que pode, hein? essa ninguém entendeu, nem mesmo o guimarães rosa...
e o filho, coitado, matutou a vida inteirinha e cresceu e envelheceu até descobrir não o porquê da decisão do pai, mas descobriu que de repente ele podia era ir ficar no lugar do pai. aí ele foi, mas as interrogações, é claro, foram todas junto dele. e chegou lá, chamou o pai e lá se veio o pai no poc poc da canoa e chegou perto e bufu! o filho viu foi o pai sumir, como é que pode?
nem sei como é que pode, nessa altura o filho é que já tinha sumido pra bem longe duma carreira que deu assustado, ele e as interrogações dele, apavorados.
o que aconteceu depois? ora, mas é claro que aquelas dúvidas ficaram comendo ele, o filho. ele não sabia porquê o pai apareceu e sumiu no dia que ele disse que ía trocar de canto com ele. será que ele não sabia as respostas daquelas dúvidas porque saiu naquela carreira? sei lá! mas ele se pôs a imaginar que se o pai - que era o pai - tinha se decidido por aquela decisão de ficar justo no meio - o jeito dele tirar as dúvidas era indo pra lá também!
só que agora, agora justo agora, o pobre do filho com o peso daquelas dúvidas que carregou a vida inteira, é claro que justo agora o filho não tinha nem a menor condição de se pôr de pé pra fazer a sua própria canoa...