biba a bolívia - nota 3



13 de Julio, Cochabamba.

Depois de comer o famoso pollo com papas fritas (frango assado com batatas fritas) num dos famosos restaurantes chineses e me acomodar nas largas cadeiras de um buscama, a noite passou e ao amanhecer cheguei em Cochabamba. Buscando hospedagem, muitos hotéis lotados e cansada do peso da mochila, acabei topando a Hospedagem Vargas na barulhenta Avenida Aroma com camas de ferro de mola quebrada e banho comunitário de água quente - jurou o recepcionista, mas não era bem verdade. Na friaca daquele banheiro imundo, ao tirar a roupa toda, cadê a água que não cai? Depois de reclamar na recepção não dei muita bola da água cair gelada: faziam três dias que eu não sabia o que era um banho, as minhas pernas estavam inchadas e coçavam muito por causa do uso ininterrupto de meia-calça...
De corpo limpo e roupa cheirosa, na parada na primeira lojinha de chamadas telefônicas o Alceu Valença cantava Morena Tropicana em espanhol.
Num mercado popular, além de comprar folhas de coca, tomei um café da manhã e conheci uma invenção muito energética e saborosa dos bolivianos, o Vitamínico, uma vitamina preparada com mamão, maçã, banana, amêndoa, ovo cru, côco, leite e melão, tudo batido no liquidificador, cerca de meio litro por apenas 4 bolivianos.
É em Cochabamba que fica o Cristo de la Concordia, uma escadaria sem fim no maior sol arretado parando de cinco em cinco degraus pra tentar respirar e evitar que o coração saia pela boca. Lá de cima, mira-se boa parte da cidade, que fica num vale.
A cidade tem mais brasileiros, chilenos, argentinos, jovens que vão estudar medicina na Bolívia e movimentam as ruas à noite, no entorno da Calle España, pelos bares, restaurantes e boates.

biba a bolívia - nota 2




12 de Julio, Santa Cruz de la Sierra.

O Trem da Morte não é de morte, a não ser que o viajante busque luxo - se for o caso é melhor escolher outro país pra visitar. Os bancos de couro encapados com tecido eram reclináveis e funcionavam a contento. E se alguém quiser reclamar dos banheiros, pelo menos o trem tem banheiros, artigo em extinção nos ônibus bolivianos.
Depois de vinte horas de viagem, o desembarque numa rodoferroviária lotadíssima, uma confusão medonha pra conseguir passagem no buscama para Cochabamba durante a noite.
A bagagem ficou na rodoferro, e o Juan Luís, taxista, foi até a Plaza 24 de Mayo conversando sobre a culinária boliviana e dando as dicas de comida barata.
Santa Cruz de la Sierra é uma cidade turística bem aburguesada, nota-se que é uma das cidades mais ricas do país, com lojas e centros de compra elegantes, decoração e jardins refinados. A Plaza 24 de Mayo, onde fica a Catedral e seu altar coberto de prata, é muito bonita, arborizada, florida, cheio de pombos e crianças nos bancos brincando de alimentá-los com milho, alimento abundante.
O centro da cidade é bem charmoso, cheio de igrejas lindíssimas ornadas no padrão espanhol, com santos católicos misturados aos santos de Potosí.
Por 7 bolivianos, um almoço completo serviu uma sopa aguada com um pedaço de carne boiando, batatas e uns grãos redondos amarelados que ainda estou pra desvendar; talharim de massa caseira num molho vermelho e um pedação de peito de frango, e acompanhando um refresco de limão e banana prata assada de sobremesa.
Esperando o horário do ônibus, uma visita ao Museu Etno-Folklorico no Parque El Arenal e o Museu de História. Caminhando encontrei uma feira ao ar livre com toda sorte de oferta e a discrepância dos preços brasileiros é tão impressionante que pechinchar passa a ser constrangedor. Ao lado da feira estava o mercado popular, que me trouxe a lembrança do mercado de Cascavel no Ceará, onde eu costumava tomar café da manhã e comprar frutas e legumes. Aproveitei pra tomar um café, que é pior do que os cafés solúveis no Brasil, com um pastel de massa caseira levemente adocicado, bem gostoso. O que há de mais popular na cozinha boliviana é pollo com papas fritas, um frango assado bem gorduroso com batatas fritas bem gordurosas.
O ônibus chamado BusCama surpreendeu, superando as expectativas. Além de ter banheiro (com um aviso na porta de que só se deveria mijar!), tinha cadeiras bem espaçosas, com suporte para as pernas e uma inclinação perto dos 180 graus. Extremamente cansada, fiquei feito pinto no lixo.

biba a bolibia - nota 1



Puerto Quijarro, onze de julho, 2007.
Ainda ontem, depois de despertar ao ouvir duas meninas potiguares gritando na porta da casa carioca, abrigá-las no cafofo, comer cuscuz com ovos, salsichas e leite encaixotado com café; e de entregar o mói de chaves pra elas, apanhar duas kombis até o Aeroporto Antônio Carlos Jobim e entregar na esteira nove quilos de mochilão; depois de viajar de avião até Curitiba e aproveitar a conexão pra entrar num caracol de vidro, ficar ouvindo a voz de metrô da moça que indica as paradas e manda a gente se comportar, apanhar o Ligeirinho, que não chega num minuto a mais nem a menos, sentar numa cadeira confortável que não escorrega, observar o motorista que usa cinto de segurança e não tem marcha no carro pra não ultrapassar os 60km e ainda por cima viaja ouvindo música instrumental chiquérrima (eu juro que ouvi a música-tema de Amelie Poulain e Live and Let Die dos Guns, boquiaberta); depois de prometer voltar lá pra comprar a mobília da casa da fazenda, voltar pro aeroporto e seguir pra Campo Grande e descer do avião e experimentar na pele os desesperadores 16 graus do termômetro e ter vontade de voltar correndo pra casa; depois de apanhar um ônibus cor de barro com passageiros e sapatos cor de barro, jantar na rodoviária um prato executivo lotado de carne e aguardar na sala da Andorinha, com a garganta irritada e o ouvido dorido pelo último pouso, o jogo da Copa América, Brasil X Uruguai, que parou por falta de luz no estádio de Maracaibo na Venezuela (e depois de aturar o Galvão Bueno atribuir a falta de luz ao caos do govierno de Chávez)... no fim das contas a peleja foi resolvida nos pênaltis e o Brasil saiu vitorioso e classificado pra alguma merda que certamente deve ser de suma importância pra vida de todos nós.
Enfim, depois disso tudo que é só o começo, o dia amanhecia quando desci do ônibus em Corumbá perto do Pantanal numa friaca horrorosa, e subi numa moto cagando de medo e mijando de frio. O desespero durou quase um terço inteiro, mas cheguei viva pra carimbar o passaporte. Chegar à Estação Ferroviária com o dia amanhecendo traz a imensa vantagem de garantir passagens sem o superfaturamento da mão dos cambistas, coisa muito comum na região. Na Zona Franca de Puerto Quijarro o preço dos vinhos é encantador, mas pra fazer compras de verdade, nada é comparável a La Paz.
Aguardando o Trem da Morte na Estação Ferroviária de Puerto Quijarro, a temperatura média era exatamente FRIO PRA CARALHO graus, e as primeiras moedas bolivianas foram gastas com café ralo e salteñas, enquanto observava o movimento da Estação, aguardando o embarque no trem no vagão A-103, repleto de nativos.

mapa do agora sim maravilhoso.

minha meninice passou-se num quarteirão de rua de calçamento de pedra. na entrada, um olho d´água jorrando dia e noite, a água rolando pelas beiradas e os nossos barquinhos de papel navegando trôpegos na direção da mata, cheirando o caminho até o riacho das lavadeiras, onde os moços pitavam os cigarrinhos enrolados na seda enquanto os moleques aprisionavam os pobres betas, inflados e acesos dentro de sacos plásticos.
as lavadeiras, os moços, os moleques, à noite os enamorados saíam da mata e voltavam pras suas casas que trepados nos muros do quintal avistávamos: os barracos do dendê.
insistiam que eu devia temer a favela, aquela zona de perigo que abrigava a maldade, a malandragem, a escória do mundo. e eu, soltando pipa, jogando bila, trepando nas árvores, defendendo bola no gol, no coro com os moleques da rua e os do dendê, nunca que conseguia entender que diabos de maldade seria aquela se estávamos todos rindo juntos no mesmo tom. compreendia menos ainda quando me aventurava pelos becos dos casebres indo experimentar roupas na casa da costureira, admirada do mundo de flores colorindo as casas, sua vida alegre nos latões reutilizados, o movimento de gente, bicicleta, menino, as bodegas, os botecos e aquela senhora de boca vermelha no bar cantando "ronda" tão alto...

no meio da minha meninice a paisagem mudou por completo e os morros me tomaram as retinas. da água fria mudei-me para a água escondida e os quadros do dendê foram tomados pelas vitrines de icaraí. as pessoas moravam trepadas no alto dos edifícios, as costureiras esconderam-se nas fábricas e suas roupas desfilavam nas mulheres de bochechas pintadas, brilho nos lábios, salto nos pés. os cães peludos penteados e de laço encoleirados passeando entre as pessoas. os camelôs tomando as calçadas e toda sorte de cacarecos pendurados em oferta. eu nunca tinha visto gente vendendo flor fora da porta do cemitério, achava lindo e ficava impressionada tentando imaginar o que fariam as pessoas levando seus ramalhetes cheirosos e coloridos pra casa, as suas flores mortas.
as brincadeiras das crianças eram no chamado "play" e minhas colegas de escola moravam em apartamentos impecáveis decorados sob medida. nunca ninguém me disse que eu temesse aquela gente. as garotas da escola que moravam no prédio vizinho me perseguiam, riam do meu sotaque, gritavam aos quatro cantos que eu era uma "paraíba". via as meninas escolhendo as roupas pela etiqueta - não a do preço, mas a da marca e não entendia onde era mesmo que estava o valor das coisas e da gente nesses mundos tão diferentes... me distraía pelas ruas movimentadas de icaraí, olhando os carros, investigando as prateleiras dos supermercados, enchendo os olhos nas padarias, cantando o pai nosso no santuário das almas, torcendo o pescoço admirada das copas das árvores do campo de são bento, gastando fichas telefônicas pra contar pra família da saudade e dos pássaros sobre o mar, da vista dos morros do rio, o pôr do sol sempre incrível me deixando agradecida.

minha meninice distante e eu continuo a ver, entre as pessoas, os muros, os jardins, os cães, entre as incontáveis ofertas das vitrines de icaraí, que cada canto guarda um sorriso franco, e que sempre há espaço pro amor.

viagens no circular 1

aí teve aquele dia lá nas cadeiras dos fundos onde sempre gostei muito de sentar apesar do sacolejo infeliz balançando-me os peitos que uma menina contou-me naquela entrada de noite o seu gostar por meninas. sim, pois sempre gostara de deleitar-se reparando-as na escola, os seus cabelos, os seus batons nos lábios, sim, apetecia-lhe mais o doce soar das vozes femininas e os seus jeitos de carregar o corpo durante o recreio. olhava aquilo e depois tinha sonhos pernas e coxas e bocas e, enfim, botem suas cabeças pra funcionar, mas apaixonar-se justo por missivas, isso não! que as palavras lhe fossem tocando a pele deslizando os dedos finos por sua nuca e assoprando-lhe com as pontas úmidas dos lábios os mudos dizeres do desejo... ai.
também eu fiquei assim quando ouvi, imaginando as delícias dos seus sonhos e a paixão pela caixa de correspondências na porta da rua. mas depois que suas cartas tomaram forma e que suas formas ganharam carnes brancas e jeans folgados e a fala rouca do sul e essa fala rouca de olho azul desembarcou e adentrou sua casa, digo, seu quarto, quero dizer, sua cama, aí não houve mais modo de não dizer nervosas parolices que pelo menos mal disfarçassem o calor que se fez. vocês que não viram não podem imaginar, mas ela sim sabe o quanto esteve ali estupefata com o enorme tamanho dos seus lindos pés gigantes, abrindo e fechando sem parar os lábios na tentativa vã de esquecer a idéia de enroscar-se em seus olhos.
e naquele dia a noite não deixou de vir. quando veio as duas meninas tiveram que ouvir o cortante silêncio do quarto, quando ambas já nem pensavam, sentindo a boca quente dizer aquilo que carta nenhuma seria capaz. inventou garrafa de vinho e pizza fatiada à francesa. inventou os discos mais bonitos da prateleira, os livros, as anotações, as xerox de fanzines, velhas fotografias, tudo arquivado em seu quarto que pudesse desviar a atenção dos lábios, mas o tempo não teve pena delas, ficou se arrastando, se esticando, se esgueirando e ainda mandou chamar a água, choveu a cântaros de um jeito forte que não se sabia mais se gritava mais urgente lá fora ou no quarto.
com o barulho da chuva ela bem pôde perceber que gastava a garganta à toa. a atenção da galega guria estava toda no seu fechar e abrir a boca e guardar o fino cabelo por detrás da orelha e cruzar as pernas dando mil voltas feito contorcionista e as mãos recolhidas uma sobre a outra nos joelhos e pedir um cigarro e sorrir no começo no meio e no fim de cada frase vazia.
então teve uma idéia que pensou brilhante para escapulir dizendo que ia deitar-se e fechar os olhos com a intenção de sonho e você precisa de algo pra dormir? a garota guria grandona sorriu no canto da boca, sabe aquele sorriso por detrás das lentes dos óculos que não tem nada absolutamente nada de mudos, mas pela falta da palavra bem se pode dizer que não compreendeu? e não respondeu à pergunta nem nada.
é claro que diante dos fatos ela preferiu fazer-se de desentendida, pegou o seu travesseiro preferido, um lençol e mais nada, entregou-lhe junto um beijo na bochecha e deitou.
foi então que encharcaram o quarto, aquelas duas!

no meio do rio um homem.

aquele homem do guimarães rosa...
aquele! aquele doido que inventou de viver o resto da vida no meio do rio. no meio do rio! nem de um lado, nem de outro, o cara foi viver bem no meio do rio. e deixou tudo, viu? deixou tudo sem a menor explicação, a casa, a mulher, os três filhos que fez, deixou todos. e foi viver lá, na sua canoa de pau vinhático - aquela árvore gigante que o peter me apresentou em boa sorte - e ficou lá debaixo de sol, debaixo de chuva, com vento e sem vento, vendo o tempo passar e só.
o que diabos aquele homem foi fazer ali sozinho acho que nem o guimarães rosa entendeu, mas o que todo mundo acha é que ali num era lugar prum homem de bom juízo viver.
foi por isso que chamaram o padre, o pastor, o prefeito, o jornal, chamaram foi tudo mas o homem nem se moveu! ele estava decidido a ficar ali, bem no meio do rio, nem de um lado nem de outro, como se o meio fosse lugar pra se ficar. embora todos discordassem, o meio do rio foi justo o lugar que o homem escolheu pra ficar e ele estava muito bem decidido.
indeciso na história foi o seu menino caçula, que foi quem preparou e deixou uma marmita pro pai à beira do rio todos os dias de todos os anos que ele viveu ali, mas na hora que disse que ía ficar no lugar do pai, já velho, saiu foi correndo. ora, mas e alguém pode julgar o pobre do filho que num sabia nem o que diabos de raio de cargas d´água o pai tinha ido fazer no meio daquele rio desde quando ele era pequeno, pequeninho? é claro que o filho nunca entendeu nada, mas se era o pai que tinha decidido aquilo não era ele o filho quem iria contestar e ficou ali sem entender nada, vendo a mãe pobre coitada definhar a amargura de ver seu homem bem nas vistas, lá no meio do rio, nem foi embora de fato nem estava mais com ela em casa, coitada, aquilo era uma humilhação.
foi por isso que ela se mandou quando a irmã do filho fez o convite. a irmã do filho também estava danada da vida porque foi mostrar o filho dela, o neto, pro pai lá na beira do rio e gritou, gritou, se esgoelou pelo pai, mas quem disse? ele não apareceu nem pra olhar de longe o netinho que a filha veio mostrar.
o filho não entendia nada, só continuava indo lá todo dia botar uma comidinha na beira do rio pro pai. mas é claro que a vida todinha ele carregou todas aquelas interrogações de porquê diabos de raio de cargas d´água o pai inventou de ir viver numa canoa bem no meio do rio, como se o meio fosse lugar pra se ficar.
se ele tivesse ido embora com a mulher do circo como fez o irmão do filho, era porque estava apaixonado, e paixão a gente entende, não há quem resista. sei não... se tivesse feito uma trouxa e saído andando por aí, pelo menos ía pralgum canto enquanto passava o tempo, o vento, o sol, as nuvens, a chuva, isso tudo. mas não adianta levantar hipótese, pois o fato é que o homem decidiu mesmo foi passar os minutos, as horas, os dias e os anos bem ali sentado na canoa no meio do rio.
mas menino como é que pode, hein? essa ninguém entendeu, nem mesmo o guimarães rosa...
e o filho, coitado, matutou a vida inteirinha e cresceu e envelheceu até descobrir não o porquê da decisão do pai, mas descobriu que de repente ele podia era ir ficar no lugar do pai. aí ele foi, mas as interrogações, é claro, foram todas junto dele. e chegou lá, chamou o pai e lá se veio o pai no poc poc da canoa e chegou perto e bufu! o filho viu foi o pai sumir, como é que pode?
nem sei como é que pode, nessa altura o filho é que já tinha sumido pra bem longe duma carreira que deu assustado, ele e as interrogações dele, apavorados.
o que aconteceu depois? ora, mas é claro que aquelas dúvidas ficaram comendo ele, o filho. ele não sabia porquê o pai apareceu e sumiu no dia que ele disse que ía trocar de canto com ele. será que ele não sabia as respostas daquelas dúvidas porque saiu naquela carreira? sei lá! mas ele se pôs a imaginar que se o pai - que era o pai - tinha se decidido por aquela decisão de ficar justo no meio - o jeito dele tirar as dúvidas era indo pra lá também!
só que agora, agora justo agora, o pobre do filho com o peso daquelas dúvidas que carregou a vida inteira, é claro que justo agora o filho não tinha nem a menor condição de se pôr de pé pra fazer a sua própria canoa...

religare.

marc augé, estudioso francês, trata o conceito de não-lugar como algo que surge da supermodernidade, nesse processo de aceleração da história com a superabundância de fatos e informações e os espaços - ou o tempo? - sofrem um encurtamento com a facilidade de deslocamento e a oferta de imagens "que se misturam diariamente nas telas do planeta as imagens da informação, da publicidade e da ficção, cujo trabalho e cuja finalidade não são idênticos (...), mas que compõem, debaixo dos nossos olhos, um universo relativamente homogêneo em sua diversidade" e que provocam mudanças práticas na vida social, a criação de símbolos que permitam ao transeunte deslocamentos impessoais, seja com um cartão telefônico, ou um cartão de crédito, um bilhete de metrô, um documento pessoal. esses espaços, esses não-lugares, são "tanto as instalações necessárias à circulação acelerada das pessoas e bens (vias expressas, trevos rodoviários, aeroportos) quanto os próprios meios de transporte ou os grandes centros comerciais", os "locais superpopulosos, onde se cruzam, ignorando-se, milhares de itinerários individuais, que subsiste algo do encanto vago dos terrenos baldios e dos canteiros de obras, das estações e das salas de espera, onde os passos se perdem, de todos os lugares de acaso e de encontro, onde se pode sentir de maneira fugidia a possibilidade mantida da aventura, o sentido de que só se tem que 'deixar acontecer'".
de modo que essa era pós-super-ultra-mega-moderna está repleta de espaços - virtuais ou não - que interligam as pessoas sem que de fato as ligue a algo. entretidas com o sono no ônibus a caminho do trabalho, voltadas para as tarefas diárias que garantam o próprio pão, sem tempo a perder - porque tempo é dinheiro, realizando automaticamente suas atividades rotineiras, feito robôs, as pessoas utilizam-se dos espaços públicos que são hoje, espaços de solidão. solidão nos supermercados, no ônibus, no metrô, no trem, nas academias de ginástica, nas festas, nas lanchonetes e em todos os locais cheios de gente, nessas aglomerações, nesses não-lugares - pois ali se está sem que se esteja - onde se pode agora criar uma etnologia da solidão, solidão que não é outra coisa senão homens perdidos procurando em vão a religação.