seara
fleixeiras.
o cheiro de alga e aquele mar sereno, sempre, catando os peixes no curral.
mundaú.
o gosto do peixe na fogueira, o canto do mano chao e a vista do rio se virando em mar.
o jequi.
e aquela casa sozinha mirando o horizonte por cima das dunas,
um sem-número de meninos saindo dum formigueiro,
comer peixe com beijú.
o juá.
o cheiro perfumoso da emburana e o pau branco cheio de coração marrom pendurado.
o quixadá.
diz-se que em dias quentes se ouve os estalidos das pedras dilatando.
naquela quentura caçar desenhos nos monólitos.
viçosa do ceará.
a escadaria pra alcançar as nuvens.
o manhoso.
o poço da princesa - gelado - e o frio na barriga procurando a onça.
ubajara.
wesley, o guia, lembrava um amor antigo.
o murici-preguiça e a fedentina de morcegos na gruta.
impressionantes estalactites e estalagnites.
descobrir que sei distinguir o pau d´arco do ipê amarelo.
guaramiranga, guaramilombra.
o sol deitando lá por detrás do muro do cemitério.
fruta-pão pela primeira vez na vida, o primeiro baseado.
quantos banhos no maciço,
o gosto de pato da cachoeira de palmácia,
as crianças fazendo festa na cachoeira da redonda,
a dança do óleo das palmeiras brilhando com o canto dos pássaros,
a longa verde vereda até a cachoeira do são paulo,
o abismo exuberante da cachoeira do perigo,
avistar a linha da serra,
procurar líquens nas velhas senhoras do mulungú,
pedrinho fazendo charme atrás de um colo pro banho de açude,
o fogão a lenha da morada ecológica,
cozinhar pra meia centena de pessoas,
sofá de pedra pra ver o sol baixar.
o amarelado dos pés de murici,
o canto da chuva chegando no guanacés,
o surfe da taíba,
a igreja redonda avistando o mar de canoa,
as falésias do beberibe,
ó céus!
ó mares!
são tantos inumeráveis os memoráveis cantos da minha terra...
ó estradas que me levam!
cotovelite.
depois de despencar o túnel, de secar as roupas molhando cem vezes no varal, depois de expulsar a terra escura trazida da rua na correnteza e recolocar tudo no que talvez seja o lugar, sozinha no meu oitavo andar onde tudo é um, no meu pequeno mundo não sei se foi não foi o cento de escolhas erradas, arrancando os tampos das granadas, eu e minha mira torta.
depois - tolice - quero achar que irei encontrá-lo nalgum lugar e tento prever onde como quando e com qual dos olhos nos veremos, onde guardarei meus braços e meu beijo querendo procurar seu cheiro, o cheiro dele me amolecendo o corpo, querendo aninhar-se nos pêlos. quero acreditar que acharei a textura dos cabelos dele e o seu silêncio e olhar fixo em outras camas.
depois eu lembro do jeito dele morder a boca e torcer os cabelos no dedo junto comigo, falando sem parar inquieto andando pra todo lado com as pernas bem torneadas e aquela boca sorrindo, ainda acho que ele vai abrir a porta mesmo sabendo que nunca teve a chave, eu mesmo assim contudo queria ser achada em qualquer lugar, pois o amor se perde, mas não se esquece e essa chuva toda, os ralos entupidos, a areia preta trazida da rua na correnteza, me traz tantas coisas revolvidas na água suja, sobre o amor que não se esquece sempre presente nas minhas cartas que ele não entende dizendo que não sou sincera, achando que falo de algo além, tempos de outrora, alheio a nós, como se eu pudesse mesmo falar de algo que não seja sempre essa alegria roubada que ele me tomou.
eu falo sempre da nossa felicidade breve (os infinitos lugares que sonhamos descobrir juntos, sua mão me tomando o braço de sopetão no caminhar das ruas, nossas coxas grudadas nas cadeiras dos ônibus, conversas baixinhas coladas no ouvido, nossas gargalhadas descontroladas e do que eu sentia no simples encostar da pele, que era como se eu pudesse saber do nosso não-dito, como que desnecessário mover os lábios pra dizer qualquer coisa enquanto ele me mirasse os olhos enquanto os seus me diziam que não poderia acompanhá-lo se já havia feito a escolha e eu não cabia, queria caber, mas não nem adiantava forçar. deixei que voltasse a sorrir naquele porta-retratos.
mas a dor é que depois que o amor se anuncia - se anuncia sem querer silenciar - eu já não sei como entender tua ausência.
depois - tolice - quero achar que irei encontrá-lo nalgum lugar e tento prever onde como quando e com qual dos olhos nos veremos, onde guardarei meus braços e meu beijo querendo procurar seu cheiro, o cheiro dele me amolecendo o corpo, querendo aninhar-se nos pêlos. quero acreditar que acharei a textura dos cabelos dele e o seu silêncio e olhar fixo em outras camas.
depois eu lembro do jeito dele morder a boca e torcer os cabelos no dedo junto comigo, falando sem parar inquieto andando pra todo lado com as pernas bem torneadas e aquela boca sorrindo, ainda acho que ele vai abrir a porta mesmo sabendo que nunca teve a chave, eu mesmo assim contudo queria ser achada em qualquer lugar, pois o amor se perde, mas não se esquece e essa chuva toda, os ralos entupidos, a areia preta trazida da rua na correnteza, me traz tantas coisas revolvidas na água suja, sobre o amor que não se esquece sempre presente nas minhas cartas que ele não entende dizendo que não sou sincera, achando que falo de algo além, tempos de outrora, alheio a nós, como se eu pudesse mesmo falar de algo que não seja sempre essa alegria roubada que ele me tomou.
eu falo sempre da nossa felicidade breve (os infinitos lugares que sonhamos descobrir juntos, sua mão me tomando o braço de sopetão no caminhar das ruas, nossas coxas grudadas nas cadeiras dos ônibus, conversas baixinhas coladas no ouvido, nossas gargalhadas descontroladas e do que eu sentia no simples encostar da pele, que era como se eu pudesse saber do nosso não-dito, como que desnecessário mover os lábios pra dizer qualquer coisa enquanto ele me mirasse os olhos enquanto os seus me diziam que não poderia acompanhá-lo se já havia feito a escolha e eu não cabia, queria caber, mas não nem adiantava forçar. deixei que voltasse a sorrir naquele porta-retratos.
mas a dor é que depois que o amor se anuncia - se anuncia sem querer silenciar - eu já não sei como entender tua ausência.
biba a bolibia - nota 10
25 a 01, Potosí/Sucre/Cochabamba/Santa Cruz de la Sierra/Corumbá/Brasil.
Em Potosí, visitei a Casa da Moeda e almocei pollo com papas fritas no restaurante chinês e peguei uma van para tomar banho na Lagoa Tarapaya. Fred, cercado de pequenos peludos filhotes de cão, me atendeu de modo simpático cobrando 5 bolivianos pelo banho e avisando que a lagoa é funda e o piso de barro desliza bastante. As águas da lagoa são termais e a temperatura é cerca de 30 graus, porém com o vento que fazia não suportei muito tempo dentro d´água, e além disso estava morrendo de medo, pois ela era realmente funda. Tomei banho de sol até secar e chegou uma família numerosa de holandeses, parti.
No ponto de ônibus, pela primeira vez pedi carona. E funcionou. Dois jovens num carrão novinho, aparentemente também saídos de um banho de lagoa, cedeu lugar no carro, mas não se mostraram dispostos a conversar e a princípio fiquei com medo, eles estava muito sérios e tinham todos os trejeitos de playboys. Mas quando reparei que o motorista dirigia com responsabilidade relaxei e eles logo me deixaram no terminal de ônibus de Potosí, gentilmente.
Apanhei a mochila no hotel e resolvi ir de carro particular para Sucre, pois por 10 bolivianos a mais não gastaria com táxi até o hotel e chegaria mais rápido.
Sem muita grana disponível, o ritmo foi diminuindo. Fui prum hotel bem vagabundo e aproveitei pra dormir bastante. Tomando banho de sol na praça conheci os meninos engraxates Hugo e Santos, que me pareceram mais esclarecidos que muitos adolescentes riquinhos da cidade. Santos indicou um passeio gratuito num parque de árvores centenárias e eu fui almoçar pollo com papas fritas, estava determinada a não me aventurar mais com as comidas bolivianas. Tomando mais banho de sol no parque, reencontrei Santos com folhas na mão a caminho da escola, no turno da noite.
Estava rolando um Festival de Cinema na cidade, o III Festival de Cinema de Direitos Humanos, e os filmes eram gratuitos. Isso salvou os últimos dias no país, cansada e dura não tinha mais como continuar rodando, e ocupei o tempo entretida nos cinemas.
A longa estadia e o espaço do hotel fajuto me permitiu lavar as roupas de dias e dias de suor acumulados e no mais muito banco de praça e pollo com papas fritas.
Sucre é bem movimentada, comércio intenso e muitas praças bem arrumadas, mas a essa altura da viagem, depois de visitar a maravilha do Salar, nada me parecia mais interessante do que a idéia de chegar em casa.
De Sucre para Cochabamba. De Cochabamba pra Santa Cruz de la Sierra. De Santa Cruz para a Rodoferroviária pra apanhar o Trem da Morte de volta ao Brasil com as pernas assustadoramente inchadas, apenas uns trocados no bolso e muito cansaço... a caminho do lar, doce lar.
biba a bolíbia - nota 9
21-22-23-24, Salar de Uyuni.
A primeira parada do passeio era bem próxima da saída. Trata-se de um cemitério de trens, onde estavam sendo comidos pelo tempo os primeiros trens de transporte de suprimentos da Bolívia. Parada rápida de 10 a 15 minutos para as fotografias.
A segunda parada ficava à beira do Salar, num local chamado Colchane, onde havia um Museo de Sal com entrada paga (5 bolivianos) e vendinhas de peças de artesanato esculpidas em sal, além de guloseimas. Nessa parada encontrei uma lhama que descancansava deitada e se deixou acariciar. Depois uma simpática niña que brincava de casinha me deu sua comidinha colorida para que eu oferecesse à vicunha que estava por perto e ela aproximou-se de imediato para vir comer as bolinhas coloridas de isopor na minha mão.
Logo depois de Colchane, fizemos uma parada para fotos na entrada do deserto de sal, onde se vê centenas de montes de sal usados pela população local para o artesanato e construção.
Paramos no meio do deserto para fazer as mirabolantes fotografias do Eitan e Edwin sempre nos apressava nas paradas, pois a agência nos fez sairmos com bastante atraso.
Paramos para almoçar na Isla del Pescado, onde se paga 10 bolivianos pra entrar. Esse entrar significa subir na ilha, que é uma montanha coberta de cactus gigantescos, e apreciar a linda vista do deserto de sal lá de cima. Faz bastante frio, claro, e a subida é bem difícil porque falta ar. Lá encima haviam oferendas à Pachamama e uma placa do dia 1º de Agosto, data específica para as oferendas em agradecimento às benfeitorias da Mãe Terra.
Na descida, nosso almoço estava pronto numa das mesinhas de sal. Havia uma salada de tomate e pepino em rodelas e uma carne tipo bisteca mais dura que o bronze de Potosí com um macarrão sem sal que os gringos entupiam de catchup e maionese pra engolir com refrigerante de cola.
Edwin começou a correr e apressar as paradas para fotos engraçadinhas, pois estávamos atrasados e ele dizia que tinha que garantir-nos hospedagem.
Ficamos num hotel com camas e piso de sal, havia uma saleta de refeições com três mesas cheias de turistas, uma delas era a nossa, ficamos lanchando biscoitos com café e chá e depois Eitan nos ensinou um divertido jogo de cartas que eu não consegui lembrar depois que cheguei no Brasil. Depois jantamos uma sopa até razoável com pollo com óleo e batatas e fomos dormir com a proposta de vermos o sol nascer no dia seguinte.
De fato, acordamos e o sol estava quase chegando, mas como tínhamos uma linda janelinha de vidro exibindo tudo, nenhum de nós se encorajou a sair de dentro do saco de dormir pra sentir na pele o espetáculo lá fora.
Após o café, saímos do hotel a caminho de San Juan, onde haviam vendas (as últimas do caminho) e depois seguimos a visitar lagunas. Edwin, sempre atrasado, sempre nos fazia pedir pra parar o carro e continuava a nos apressar nas paradas, o que deixava a todos aborrecidos.
Paramos para almoçar na Laguna Hedionda, com esse nome por causa do seu apavorante cheiro de enxofre. Tivemos que juntar dinheiro e pagar 15 bolivianos para não almoçarmos no meio do gelo.
Angelica, que nesse dia sentia dor de cabeça, só dormir e não tinha a menor disposição, não contou com nossa ajuda pro almoço, pois Edwin garantiu que tudo estava pronto. Comemos algo parecido com uma salada de maionese com legumes cortados em cubo, arroz e salsichas rosadas. Os estrangeiros continuaram jogando catchup no prato pra disfarçar o gosto, e copinhos de refrigerante de cola pra descer tudo. Maçãs da Patagônica para sobremesa, gigantes e muito saborosas.
A essa altura os nossos companheiros israelenses já me aborreciam por demais, o tom desrespeitoso como falavam com o motorista e o tempo que perdiam nas paradas, a falta de esforço pra falar o espanhol, o comportamento machista e por fim a horrenda mania de gritar assustando os animais para tirar fotos...
A discussão Capitalismo X Socialismo que havia se iniciado no jantar da noite anterior teve continuidade no almoço, para desconforto de todos, exceto dos dois tagarelas que não conseguiam pôr fim ao suplício. Radek, sempre espirituoso, disse que eles não chegariam a lugar algum, mas que pelo menos estavam praticando o inglês.
No fim do dia todos estavam bem irritados com as trapalhadas do Edwin, sempre atrasado correndo, e se não tivéssemos insistido muito, teríamos perdido o pôr-do-sol mais emocionante da minha vida na Laguna Colorada, onde pisei no gelo e vi as várias cores do céu nas montanhas enquanto o sol caía.
Nessa noite Angelica febril nos preparou a mesma sopa da noite anterior, uma carne crua intragável com macarrão e uma salada picada. Comemos à força com o estímulo do Radek, que bem-humorado sempre dizia: "Estamos num tour, sorríamos".
Nessa noite não consegui dormir com o frio agonizante e a falta de ar, todos ignoraram os despertadores às 5h, e levantamos com o chamado do Edwim-sempre-atrasado às 5h45min.
Fomos ver os gêiseres, foi fantástico. Um forte odor de enxofre e um efeito incrível da fumada subindo com a luz do sol nascendo. Antes de chegar no lugar, Eitan já começou a querer eleger as águas termais como algo mais importante a se conhecer do que os gêiseres. Ele sabia que estávamos atrasados, os que seguiriam para San Pedro de Atacama no Chile deveriam chegar na fronteira às 9h e ele temia que isso sacrificasse o banho na piscina de água termal, que ele dizia ser mais importante. Monika protestou e combinamos de parar apenas 5 minutos nos gêiseres para fotos e seguiríamos para o banho. Mas quando chegamos nos gêiseres... Eitan como sempre foi o último a entrar de volta no carro, fazendo hora pra tirar mil fotos engraçadinhas.
Daí seguimos para as águas termais, onde podíamos nos banhar por 20 minutos e depois tomaríamos o café da manhã. Tirar a roupa naquele gelo não foi fácil, mas o banho quentíssimo numa piscina de 35 a 40 graus foi absurdamente relaxante, uma delícia.
E daí tomamos o café e já passava das 9 da manhã e tudo começou a ficar muito tenso, pois Edwin não sabia se haveria mais ônibus na fronteira e todos seguiriam para o Chile, menos eu. Chegamos na borda às 1030h e já não havia mais ônibus algum, Edwin correu e conseguiu encontrar na migração algumas vans, despachando todos os nossos companheiros de viagem.
Edwin e Angelica ficaram visivelmente relaxados na ausência dos gringos. Edwin parou na Laguna Blanca para sei lá o quê e na volta trouxe o nativo Gustavo, a quem Edwin estava dando uma carona extra-oficial mediante o pagamento de alguma gorjeta.
Tínhamos oito horas de viagem até Uyuni e Edwin parou nas águas termais para apanhar um casal de irmãos suíços que tinha ficado no prego. Evelyn e Cristian entraram no carro com sua doçura e simpatia e seu modo modesto me conquistou pelo contraste com a arrogância dos judeus.
Edwin fingiu que não viu a Laguna Colorada e passou direto e na sua pressa quase nos mata de fome. Depois de insistirmos, ele parou no meio do deserto, num lugar com um pequeno muro barrando o vento. Angelica ia fazer mais uma de suas porcarias de almoço, mas no momento em que ela se retirou para buscar algo, nos aproveitamos e metemos a mão na panela. Preparamos um molho com atum ótimo para comer com o macarrão de parafuso que ela havia cozinhado.
Nesse trecho da viagem tudo ficou diferente pra mim, eu não parei mais de sorrir, tudo começou a mover-se, a dançar, mais alucinante ainda, muito mais emocionante do que eu acreditava ser possível. Deserto de Dalí, Deserto das Rocas, Montanha das Sete Cores, lhamas, alpacas, vicunhas, flamingos, águias, pequenos pássaros, lebres! Também tartarugas, peixes, baleias, leões, homens, monstros, inúmeros desenhos iam-se formando pela estrada, mágica pura, mirações. A viagem de volta à Uyuni foi muito marcante, rendeu muitos louvores a Pachamama, que me deu provas de sua misericórdia e instruiu sua filha sobre como continuar a caminhada.
biba a bolíbia - nota 8
20-21, Oruro/Uyuni.
Da Rodoviária, o S. Valdir, taxista apaixonado pelo futebol brasileiro, por indicação do próprio fiquei na rua da estação de trem na Hospedaje San Salvador e a cama do quarto tinha uma colcha do meu querido Boca Juniores.
Oruro é a cidade oficial do Carnaval, que ocorre na mesma época do festejo no Brasil, mas eles deixam os enfeites pendurados e os fogos ficam à venda nas lojas todo o ano, meio que fazendo o comercial.
Coincidência ou não, foi o lugar menos tenso que conheci, Oruro tem um ar mais jovial, mais moderno, nos mercados as roupas à venda indicam o mesmo. As pessoas sorridentes e a cidade cheia, entupida de jovens pelas ruas, que tem duas praças principais muito bonitas e velhas árvores gigantescas.
Procurando pão e jamón pelas ruas, acabei encontrando numa das praças finalmente algo parecido com um mercadinho, bem burguês, cheio de artigos finos do mundo da gastronomia. Foi lá que um velho maldito, aparentemente o dono do estabelecimento, ficou me seguindo pra evitar que eu roubasse algo. Depois até sonhei que voltava lá na bodega daquele puto e furtava umas latas de sardinha só pra sacanear - é que lá a sardinha era mais cara que o atum. E foi o maldito jamón do maldito mercado do bendito puto velho que me deu uma diarréia sinistra, nas beiradas de ir pra Uyuni, que desespero. Nada que dez bananas não tenha resolvido o meu drama.
Almocei o clássico pollo com papas fritas num adorável restaurante em que o cliente podia se servir à vontade de alface, tomate, pepino, cenoura e uma beterraba maravilhosa, mas já não lembro o nome do lugar.
Às 1530h, o trem para o deserto de sal de Uyuni. A empresa chama-se Expresso del Sur e o serviço é completamente diferente da empresa do Trem da Morte. O preço também é diferente, mas nada muito absurdo levando-se em conta os serviços voltados mesmo pro turista. Pra começo de conversa, o trem é limpo bem limpo o tempo todo. De instante em instante vem um bonequinho fardado limpar o chão e pôr spray não sei onde ajeitando o banheiro que tem papel higiênico, papel toalha e até sabonete líquido pra lavar às mãos do começo ao fim da viagem! Uma televisão passando uns filmes menos toscos que os filmes de artes marciais dos ônibus, mas sem fugir do besteirol norte-americano. Um vagão-restaurante onde o povo vai comer algo mais sofisticado e eu fui provar uma cerveja e fui praticamente expulsa por estar consumindo só isso... Enfim, o trem, a viagem, confortabilíssima e foi o trecho mais marcante da viagem pra mim porque Oruro também tem um salar, e depois que o trem sai da estação, nem dez minutos depois, já se começa a ver o chão branquinho e as montanhas lá longe e daqui a pouco patos, lagoa, flamingos, uma coisa muito emocionante, o trem passa no meio de uma lagoa do salar cheia de flamingos, caí no choro quando vi o cenário. Pra completar, um pôr-do-sol belíssimo da janela do trem e às 2230h ele chegou a Uyuni, um frio cortante na cara, achei que morreria por lá.
Já na saída da estação começa o assédio dos agentes de viagem, mas a melhor coisa é se fazer de difícil e não aceitar as ofertas, eles vão baixando os preços consideravelmente. A maioria dos turistas tem grana, e aceita de cara os 100 dólares que eles cobram, mas eu nem tinha isso pra pagar e depois de conversar nas agências, não acertei nada e fui dormir na opção mais barata na praça da estação, a pousada Cactus, um quarto duplo com banho compartilhado e mobília feita com os cactos gigantescos da região.
No dia seguinte o Oscar, dono de uma das agências da noite anterior, me jogou um olhar interessado e não foi mais preciso pechinchar: vendeu o passeio por 60 dólares.
Às dez e meia da manhã naquela friaca estava pronta pra viajar com um casal da República Tcheca (Monika e Radek, ela veterinária, ele engenheiro e os dois muito simpáticos) e outro casal (Hadas e Eitan, ele além de judeu, advogado) com um amigo (Elad) vindos de Israel. O motorista chamava-se Edwin e vestia uma camisa do Brasil por debaixo do macacão de Fórmula I bem fedorento. E a cozinheira era Angélica, uma criança de 14 anos de idade que cozinhava mal como qualquer cozinheira boliviana, com a diferença que ela não tinha a menor noção, como uma criança de 14 anos. Os colegas de viagem falavam menos espanhol que eu, o que significa dizer que eles não falavam porra nenhuma mesmo. Somente Radek, que havia morado por 3 meses num hotel no Flamengo durante a infância (quando ganhou o justo apelido Amigo) é que conseguia compreender melhor nossa conversa. Isso me obrigou a pensar em inglês durante todo o passeio, o que me deixou bem mau humorada a princípio.
A saída estava marcada para as onze, mas só saiu depois de todas as pick-ups, após o meio-dia...
biba a bolibia - nota 7
19, Tiwanaku.
Dia de cruzar com loucos varridos.
No cemitério, apanhei condução para Tiwanaku. O ônibus está a caminho de Desaguero, na fronteira, e passa na entrada da terra dos Tiwanacota.
Da entrada para Tiwanacu até o Museu peguei uma vã com mais dois curitibanos. A visita ao museu não é barata e ainda os guias nos assediam querendo cobrar a visita guiada.
Há um prédio com 5 anos de vida, uma obra arquitetônica de muito bom gosto, moderna. Guarda as Estelas, peças de pedra trabalhada com altos metros de altura.
Um outro prédio mais antigo, inaugurado em 92 contém peças de cerâmica e toda a evolução do trabalho dos ceramistas. Peças utilitárias, ferramentas, dados sobre alimentação, múmias. Foi onde soube que os fetos de lhama foram embalsamados desde sempre como um amuleto para evitar geadas nas plantações.
A terceira parte do museu é ao ar livre. Há muitos trabalhadores nas escavações. Haviam dois esqueletos de animais e uma pirâmide sendo descobertos e vê-se o sistema de irrigaçãos dos tiwanacotas, pedras gigantes formando muros, a porta do sol, a porta da lua, um templo. Impressiona a precisão e simplicidade das construções, como também o ambiente em que está posto, o céu maravilhoso, a vista das montanhas.
A quarta parte fica mais afastada e os turistas não se dão ao trabalho de ir até lá, mas eu andei até as ruínas, pedras com os típicos desenhos geométricos da região, cobertas de líquens de toda cor.
Na viagem de volta a La Paz a viagem ía tranquila, exceto pelo motorista que não parava de sentar a mão na buzina. Ao avistar na estradas 3 homens e 1 mulher, começou a buzinar e parou. Achei estranho, pois via-se que estavam bêbados e um deles tinha muito sangue no agasalho. Um dos rapazes sentou ao meu lado com a moça no seu colo e em poucos instantes começou a resmungar algo, achei que ele estava começando uma briga com a namorada, mas ele começou a xingar "que puta, que puta" e meteu o dedão na minha cara e começou uma discussão violenta. Um passageiro reclamou e o motorista parou 3 vezes tentando acabar com a confusão. Eu me tremia de medo e o casal de franceses na minha frente estava também apavorado. O senhor que intercedeu por nós levou uma cusparada na cara, acabamos todos descendo da vã e por fim os bêbados ficaram na estrada e o senhor que nos apoiou com a boca ensanguentada nos pedia muitas desculpas pela confusão e eu só agradecia chorando em estado de choque...
Ao chegar em La Paz, rachamos um táxi com os franceses, que mal sabiam aonde ir e por fim decidiram ir conhecer Potosí.
Eu, a caminho do Salar de Uyuni, comprei passagens pra Oruro e fiquei na confusa rodoviária aguardando o horário do ônibus e observando uma senhora preparar chantilly. Ela punha as claras num balde enorme e fazia força com o batedor por uns dez minutos seguidos. Daí checava se o creme estava no ponto virando o balde de cabeça pra baixo - nada caía. Entornava um copão de açúcar no balde, batia mais uns cinco minutos, e depois completava a outra metade duns copinhos com gelatina pra vender essa guloseima muito querida no país...
biba a bolíbia - nota 6
17-18 de Julio, Copacabana-La Paz.
De volta à cidade monocromática, um trânsito muy loco, várias bandas no meio da rua com cholas e homens de terno dançando. Em dias normais já não se entende mesmo o trânsito, não parece haver preferencial, não há placas nem marcações indicativas, o que há são buzinas sem fim.
Desci no Cemitério e peguei um táxi até a Praça São Francisco, onde tem uma igreja linda e um movimento alucinante de gente e carro. Num hotel israelense, finalmente encontrei abrigo com uma cama decente, um banheiro limpo e cheiroso finalmente e pra completar uma janela com vista pro Monte Chacaltaya.
La Paz é o lugar de consumo. Agasalhos, luvas, cachecóis, gorros, meias, mantas, espelhos, prata, fetos de lhama, amuletos, trocentos tipos de enfeites, o Mercado das Bruxas é uma festa de coisa barata. Tudo tão barato que me deixou com um sentimento de culpa, muito embora eu só tenha comprado o essencial: reforço para o frio.
A cidade é movimentadíssima, muito diferente do ritmo do resto do país. Visitei a Praça Murillo, o Museu da Coca, a feira dos sebos e meu espírito consumista foi tocado, mas resisti.
biba a bolíbia - nota 5
16 de Julio, Copacabana - Isla del Sol.
Marcés e Franco, depois de voltar do passeio na Isla del Sol, assistiram comigo no restaurante a partida Brasil X Argentina, jogo fraquíssimo com direito a gol contra do Ayala e nenhuma outra emoção, repleto de faltas e escassos chutes a gol da Argentina, e acabou no 3 a 0 só pra calar a boca da crítica brasileira que adora metralhar o Dunga. Tomamos umas cervejas caríssimas e o casal ia armar a barraca à beira do lago e morrer de frio, mas acabaram entrando no hotel sem serem vistos e alojaram-se no meu quarto. Ficamos conversando bastante no quarto, comentando nossas impressões da Bolívia e é claro que a comida e a higiene acabaram virando motivo de chacota pra nós. Depois de compartilhar nossas comidas, nos rendemos ao sono. De manhã, eles conseguiram sair do hotel sem pagar, e nos despedimos com muito carinho, eles estavam a caminho de casa.
A bordo de um dos inúmeros barcos que fazem diariamente o trajeto Copacabana-Isla del Sol, na parte de cima do barco, ao ar livre, cerca de uma hora e meia de viagem tentando suportar um vento gelado pra caralho.
Ao chegar na ilha, bateu uma fraqueza. Já na primeira escadaria eu não conseguia respirar nem tinha força no corpo e mascar folhas de coca aparentemente não resolvia nada, só o gosto ruim na boca cheia.
Chegamos na ilha num feriado, aniversário do departamento de La Paz e troca de dirigência nas províncias. Quase todos os restaurantes fechados e com dificuldade engoli a comida boliviana, que na ilha é bem cara. Tudo me causava enjôo, eu não sabia se pela altitude ou pela cozinha local. Febril, decidi abortar o passeio para o norte, descansar pra mais tarde ir à escola da ilha assistir ao festejo do feriado.
A simplicidade do hotel era delirante, e a vista da janela nem se fala. Fiquei logo apaixonada, pois o piso era de cimento queimado, uma antiga paixão minha, e as camas eram montes de pedra cobertos com tecido com colchões por cima. Essa rusticidade se apresenta por toda a ilha, os tijolos são de adobe, as mesas e cadeiras feitas de troncos...
Nos festejos da escola, os nativos penduram colates repletos de comidas, laranjas, tangerinas, bananas, pãe e até enormes garrafas de refrigerante. Caixas e mais caixas de cerveja que dispensam refrigeração e cholas vendendo frutas e doces, as crianças empanturrando-se. Em todo lugar há muitas crianças de todas as idades, porém não vi grávidas em parte alguma. Um grupo de meninas me pediu uma fotografia e quando lhes mostrei o resultado caíram na gargalhada e pediram que eu pagasse. Um outro grupo se aproximou e pediu foto, caramelo, e por fim pediram pra ficar com as tangerinas que eu tinha comigo. Esse contato me surpreendeu, pois eles não dão a menor bola pros turistas, em geral nos ignoram a presença e dão as costas quando nos vêem fotografar. As cholas nunca nos olham, nem sorriem, mas também nem em dia de festa bailando colocam um sorriso no rosto.
Havia um senhor com uma garrafa pet na mão e uma bebida de cor alaranjada. Encheu um copinho miúdo feito o nosso copo de cachaça e primeiro serviu o santo jogando a bebida no chão, depois saiu servindo senhores e senhoras do grupo.
Haviam vários grupos na escola, cada um com sua banda, sua roda de mulheres e sua roda de homens. As crianças espalhadas em algazarra por toda parte, alguns jogavam futebol na quadra, outros vôlei, outros brincavam no parquinho, outros pendurados num pinheiro atacando os debaixo com as pinhas miudinhas... Crianças rolando pelo chão, e se entupindo de doces com suas maçãs do rosto rachadas de tanto frio.
A Isla del Sol é mágica...
biba a bolibia - nota 4
14 e 15 de Julio, La Paz/Copacabana.
A recepção bateu na porta às seis e parti para a Rodoferro. No caminho com pressa comprei um pacote com pães duros com queijo e água e me dei por satisfeita com esse café da manhã no ônibus.
Faltando cerca de uma hora pra chegar em La Paz, já se começa a avistar os picos nevados da paisagem do altiplano. Aí sim comecei a apreciar a beleza natural da Bolívia, a paisagem é impressionante.
O ônibus não tinha banheiro e a televisão exibia um filme tosco, "Anjos da Noite II", mas isso era compensado na presença de calefação, o que é realmente muito agradável numa viagem de ônibus no período do inverno.
Começaram também a aparecer finalmente pichações nos muros em favor de Evo. Até então, em Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba, lugares mais aburguesados, via-se muito protestos oposicionistas.
A viagem durou oito horas. La Paz é uma cidade muito interessante, fica dentro de um buraco. A arquitetura é completamente disforme e as construções sem reboco deixam a capital monocromática.
Mas não me demorei por lá. Foi descer do ônibus e pegar o táxi do Marcelo direto para o cemitério, de onde partem os ônibus para Copacabana. Com sorte, peguei o último ônibus do dia, que saía às 16h e viajei por mais 4 horas num ônibus lotados de gringos. Copacabana é o point dos turistas, lotada de hotéis e restaurantes e centas ofertas de passeio pelo lago Titicaca.
Mas a quantidade de nativos viajando também é impressionante. Em todas as rodoviárias, estações de trem, sempre está tudo lotado, muitas ofertas e os ônibus sempre saem cheios, é incrível como eles parecem estar circulando o tempo inteiro. Há também muitas ofertas de empregos nas cidades, empregada doméstica, babá, camareira, boleteiro... Paga-se miséria, certeza.
Outra coisa que me impressionou foi a quantidade de oferta de comida pelas ruas. Muitos pães, queijos, frituras, as malditas sopas aguadas e os pratos esquisitíssimos. A toda hora o povo está pelas ruas vendendo comida, e cmendo, de tal maneira que não pude acreditar que alguém fique em casa preparando uma comidinha caseira...
A viagem para Copacabana foi tranqüila, num determinado trecho o ônibus segue de balsa e os passageiros atravessam de barco. Daí apanha-se novamente o ônibus, que segue por cerca de 1 hora.
O Hostal La Luna em Copacabana era simpático, limpo e aconchegante. Com muito sacrifício por causa do frio absurdo, tomei um banho e saí pra jantar num dos típicos estabelecimentos para gringo ver em locais paradisíacos, uma lasanha a bolonhesa com direito a pão e salada de entrada e vinho tinto pra acompanhar. Gente de toda cor e língua. O garçom, pelo sotaque, sacou na hora que eu era brasileira.
Foi aí que conheci o lindo casal argentino, Marcés, a bailarina, e Franco, o luthier, viajaram conosco no ônibus e escolheram o mesmo hotel e ao esbarrarmos mais tarde na cidade, fomos conversar à beira do lago e expulsos pelo frio, fomos matar o tal do pinot noir da zona franca de Puerto Quijarro na linda escadaria da Candelária.
Franco vivia em Tucumã, na Argentina, e estudava na única escola de formação de luthiers da América Latina. Marcés dançava e morava com a irmã a 50km de Montevideo. Bebemos, fumavos, trocamos informações sobre música e voltamos ao hotel para descansar.
A dormida foi difícil com o frio obsceno que fazia e um buraco que me afundava no centro da cama. Com muitas dores nas pernas, acordei sofrendo com o frio, a falta de ar, as dores musculares, e o cheiro insuportável da comida boliviana, que me faz pensar que eles usam algum tempero maldito irmão gêmeo do enxofre. O cheiro da comida começou a me dar náuseas, e a viagem só tinha começado...
E o frio... realmente apavorante e daí pra frente só aumentaria. O sol é bem forte, mas qualquer sombrinha traz o frio de volta e eu saía pra todo canto com quatro calças e cinco camisas, pois não havia outro modo de sobreviver.
À beira do lago Titicaca, muito cansada, enjoada e mau humorada, experimentei uma cerveja boliviana e uma truta com arroz, batata frita e salada, e me animei pra subir o Monte Calvário. Durante a subida, a cada cruz fazendo referência à saga de Cristo, vê-se que os bolivianos jogam pedra na cruz, de onde se tira algumas explicações para a situação sofrida desse povo.
A subida é de fato um suplício, claro que eu pedi um auxílio dum relaxante muscular, além de fazer muitas preces à Santa Clara, a auxiliadora dos subidores de morro, mas a vista é absolutamente inenarrável. Lá do alto vê-se o lago, as ilhas, a praia, a cidade de Copacabana e os muitos montes ao redor, é impressionante e emocionante a cor e a imensidão daquelas águas...
A recepção bateu na porta às seis e parti para a Rodoferro. No caminho com pressa comprei um pacote com pães duros com queijo e água e me dei por satisfeita com esse café da manhã no ônibus.
Faltando cerca de uma hora pra chegar em La Paz, já se começa a avistar os picos nevados da paisagem do altiplano. Aí sim comecei a apreciar a beleza natural da Bolívia, a paisagem é impressionante.
O ônibus não tinha banheiro e a televisão exibia um filme tosco, "Anjos da Noite II", mas isso era compensado na presença de calefação, o que é realmente muito agradável numa viagem de ônibus no período do inverno.
Começaram também a aparecer finalmente pichações nos muros em favor de Evo. Até então, em Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba, lugares mais aburguesados, via-se muito protestos oposicionistas.
A viagem durou oito horas. La Paz é uma cidade muito interessante, fica dentro de um buraco. A arquitetura é completamente disforme e as construções sem reboco deixam a capital monocromática.
Mas não me demorei por lá. Foi descer do ônibus e pegar o táxi do Marcelo direto para o cemitério, de onde partem os ônibus para Copacabana. Com sorte, peguei o último ônibus do dia, que saía às 16h e viajei por mais 4 horas num ônibus lotados de gringos. Copacabana é o point dos turistas, lotada de hotéis e restaurantes e centas ofertas de passeio pelo lago Titicaca.
Mas a quantidade de nativos viajando também é impressionante. Em todas as rodoviárias, estações de trem, sempre está tudo lotado, muitas ofertas e os ônibus sempre saem cheios, é incrível como eles parecem estar circulando o tempo inteiro. Há também muitas ofertas de empregos nas cidades, empregada doméstica, babá, camareira, boleteiro... Paga-se miséria, certeza.
Outra coisa que me impressionou foi a quantidade de oferta de comida pelas ruas. Muitos pães, queijos, frituras, as malditas sopas aguadas e os pratos esquisitíssimos. A toda hora o povo está pelas ruas vendendo comida, e cmendo, de tal maneira que não pude acreditar que alguém fique em casa preparando uma comidinha caseira...
A viagem para Copacabana foi tranqüila, num determinado trecho o ônibus segue de balsa e os passageiros atravessam de barco. Daí apanha-se novamente o ônibus, que segue por cerca de 1 hora.
O Hostal La Luna em Copacabana era simpático, limpo e aconchegante. Com muito sacrifício por causa do frio absurdo, tomei um banho e saí pra jantar num dos típicos estabelecimentos para gringo ver em locais paradisíacos, uma lasanha a bolonhesa com direito a pão e salada de entrada e vinho tinto pra acompanhar. Gente de toda cor e língua. O garçom, pelo sotaque, sacou na hora que eu era brasileira.
Foi aí que conheci o lindo casal argentino, Marcés, a bailarina, e Franco, o luthier, viajaram conosco no ônibus e escolheram o mesmo hotel e ao esbarrarmos mais tarde na cidade, fomos conversar à beira do lago e expulsos pelo frio, fomos matar o tal do pinot noir da zona franca de Puerto Quijarro na linda escadaria da Candelária.
Franco vivia em Tucumã, na Argentina, e estudava na única escola de formação de luthiers da América Latina. Marcés dançava e morava com a irmã a 50km de Montevideo. Bebemos, fumavos, trocamos informações sobre música e voltamos ao hotel para descansar.
A dormida foi difícil com o frio obsceno que fazia e um buraco que me afundava no centro da cama. Com muitas dores nas pernas, acordei sofrendo com o frio, a falta de ar, as dores musculares, e o cheiro insuportável da comida boliviana, que me faz pensar que eles usam algum tempero maldito irmão gêmeo do enxofre. O cheiro da comida começou a me dar náuseas, e a viagem só tinha começado...
E o frio... realmente apavorante e daí pra frente só aumentaria. O sol é bem forte, mas qualquer sombrinha traz o frio de volta e eu saía pra todo canto com quatro calças e cinco camisas, pois não havia outro modo de sobreviver.
À beira do lago Titicaca, muito cansada, enjoada e mau humorada, experimentei uma cerveja boliviana e uma truta com arroz, batata frita e salada, e me animei pra subir o Monte Calvário. Durante a subida, a cada cruz fazendo referência à saga de Cristo, vê-se que os bolivianos jogam pedra na cruz, de onde se tira algumas explicações para a situação sofrida desse povo.
A subida é de fato um suplício, claro que eu pedi um auxílio dum relaxante muscular, além de fazer muitas preces à Santa Clara, a auxiliadora dos subidores de morro, mas a vista é absolutamente inenarrável. Lá do alto vê-se o lago, as ilhas, a praia, a cidade de Copacabana e os muitos montes ao redor, é impressionante e emocionante a cor e a imensidão daquelas águas...
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