na poltrona número treze do avião - co-incidências - ao lado uma moça prenha com seus dezoito anos e um jeito de puta inocente no seu primeiro avião pergunta-me se estou mesmo indo a fortaleza ou pro interior. ela volta contrariada pro ipú, contrariada com um bebê no ventre e um suposto marido pra trás, seu sotaque carregado me toma os tímpanos: estou voltando pra casa. falando alto, tira-me a atenção da leitura e tenho a idéia de oferecer-lhe fones de ouvido. ela aceita e fica a ouvir sandyjunior.
ao fim do vôo, um senhor de paletó azul-marinho cospe o chiclete no piso emborrachado da passarela. recorda-me o desconsolo mirando o povo sem cerimônia jogar seu lixo pelas janelas dos ônibus: estou voltando pra casa.
apanho os mochilões na esteira, abraços do lado de lá da porta automática, colo de mãe, carinho de pai, chamego de irmã, dengo de cão, cafunés e o silêncio que preciso pra ouvir o estalido do beija-flor azul na janela: nada como um lar.
aos poucos rever os amigos, me derreter com os filhotes, os que chegam e os que crescem, pros miúdos canções de ninar, pros maiores gargalhadas. paixões antigas, êxtase que se renova, voltar pra casa é isso e atravessar as ruas e não cruzar com o passado que eu só quero o futuro, a praia do futuro, meu banho de mar predileto mesmo que pise na areia e o lulu santos bem chato ressalte: que eu tô voltando pra casa outra vez!
estrela d´alva
não sou mulher de promessas.
no entanto,
um acordo mútuo muito sério selado
que busco cumprir rigorosamente:
.honrar pai e mãe
a consciência intrínseca
a esfera absoluta.
.ser irmã dos meus irmãos
olhar estrelas
.não falar mal dos outros
plantando semente colhendo
.conhecer e compreender
ir lá e ver mirar
agradecendo
dia após dia
noite após noite
ao sol
à lua
às estrelas
aos passarinhos.
"enquanto houver
espaço
corpo
e tempo
e algum modo de dizer não
eu canto"
no entanto,
um acordo mútuo muito sério selado
que busco cumprir rigorosamente:
.honrar pai e mãe
a consciência intrínseca
a esfera absoluta.
.ser irmã dos meus irmãos
olhar estrelas
.não falar mal dos outros
plantando semente colhendo
.conhecer e compreender
ir lá e ver mirar
agradecendo
dia após dia
noite após noite
ao sol
à lua
às estrelas
aos passarinhos.
"enquanto houver
espaço
corpo
e tempo
e algum modo de dizer não
eu canto"
vagão descarrilhado
Leon madrugava apanhando o trem, como apanhava. Aquele trem lotado fedendo a mijo e cheio de sono. Leon lutava segurando-se numa barra de ferro, contra o sono, contra a saudade, contra o medo que dessa vez Amália não o esperasse toda bonitona com o rosto ainda inchado e seus cabelos sempre desgrenhados. E aquela ruguinha no canto da boca torcida, que Amália sentia alegria no entanto jamais dizia. Preferia sempre resmungar do pé sujo no sofá ou do mau hálito da cachaça que Leon beliscava só por um brinde.
Leon nunca deixava de madrugar toda folga de dia incerto que lembrava bem dos resmungos de Amália ameaçando que não espera se muito custar. Ele nunca custava, ela nunca largava. Nem resmungo nem Leon. Achava que ele não era homem de um dia se casar. Sentava com os pés imundos no sofá que ela lustrava, tomava café soprando forte. Vivia muito calado, cartas nunca mandara, só um dia um bilhete com uma letra garranchuda dizendo “Te amo Gostosura”. Nem ponto nem vírgula, nada. Amália aí é que resmungava.
Leon sorria porque sabia, Amália fora sempre assim. Moleca ainda brincando com os outros perto da ferrovia, Amália era mando e desmando na algazarra dos companheiros. E ele sentia amá-la desde o princípio e mais ainda depois que ela aprendera a preparar o melhor café quente do mundo. Se outrora a rabugenta o ferira, esqueceu-se. Leon suportava tudo, só ele sabia fazer a carne de Amália tremer num leve toque, até sem toque, só ele sabia tocá-la. Mas começou a senti-la cansada dos cuidados sozinha com a casa esperando o trem com seu bem.
Pagou ao cordelista uns contos: queria que ele o ensinasse a escrever cartas de amor. Pois havia decidido colocar pingos nos is, vírgulas, ponto. Levá-la para a sua casa, aquele jardim ficaria bem bonito com as rosas vermelhas de Amália. Nem ele ia viver com medo de descer do trem e não tê-la, nem ela esperaria mais o trem ansiosa e solitária. Pois pronto. Quando a carta ficou pronta lá se foi Leon no trem fedido ao encontro da amada, contente como nunca. Chegou na porta da casa, estava lá Amália de cara inchada e cabelos desgrenhados. Levou-a consigo ao chuveiro, derramou toda a água em vão mergulhado no prazer de sua mulher. Com os pés limpos sentou-se no sofá enquanto esperava o seu café. Falou. Pelos cotovelos. Contou todas as notícias de casa, os episódios no trem, dos acontecidos no trabalho. Foram juntos de mãos dadas ao teatro, ouvir o moço cantando romances com seu violão. Amantes incansáveis até chegar o sol, e lá se foi Leon de volta apanhar seu trem, deixando por cima da mesa um envelope e sua jura de amor eterno.
Amália tremeu quando o viu cuidadoso repousando o papel sobre a mesa. Tremeu mas não foi de gozo, dessa vez. Assim que se viu só, custou a tocar o envelope, temia uma despedida. Temia que a tão esperada carta de amor viesse com as letrinhas tortas de Leon sem ponto nem vírgula. Suspirou profundo e abriu. O papel marfim perfumado, as letras miúdas de Leon, tudo em muito bom tom. Amália não se podia mais descabelar, posto que sempre fora assim. Nem podia resmungar de ver seu sonho diante de si. Transtornou-se, perdeu-se. Amália ficou sem certeza. Calou-se, murcha. E foi ter com o mar.
Leon nunca deixava de madrugar toda folga de dia incerto que lembrava bem dos resmungos de Amália ameaçando que não espera se muito custar. Ele nunca custava, ela nunca largava. Nem resmungo nem Leon. Achava que ele não era homem de um dia se casar. Sentava com os pés imundos no sofá que ela lustrava, tomava café soprando forte. Vivia muito calado, cartas nunca mandara, só um dia um bilhete com uma letra garranchuda dizendo “Te amo Gostosura”. Nem ponto nem vírgula, nada. Amália aí é que resmungava.
Leon sorria porque sabia, Amália fora sempre assim. Moleca ainda brincando com os outros perto da ferrovia, Amália era mando e desmando na algazarra dos companheiros. E ele sentia amá-la desde o princípio e mais ainda depois que ela aprendera a preparar o melhor café quente do mundo. Se outrora a rabugenta o ferira, esqueceu-se. Leon suportava tudo, só ele sabia fazer a carne de Amália tremer num leve toque, até sem toque, só ele sabia tocá-la. Mas começou a senti-la cansada dos cuidados sozinha com a casa esperando o trem com seu bem.
Pagou ao cordelista uns contos: queria que ele o ensinasse a escrever cartas de amor. Pois havia decidido colocar pingos nos is, vírgulas, ponto. Levá-la para a sua casa, aquele jardim ficaria bem bonito com as rosas vermelhas de Amália. Nem ele ia viver com medo de descer do trem e não tê-la, nem ela esperaria mais o trem ansiosa e solitária. Pois pronto. Quando a carta ficou pronta lá se foi Leon no trem fedido ao encontro da amada, contente como nunca. Chegou na porta da casa, estava lá Amália de cara inchada e cabelos desgrenhados. Levou-a consigo ao chuveiro, derramou toda a água em vão mergulhado no prazer de sua mulher. Com os pés limpos sentou-se no sofá enquanto esperava o seu café. Falou. Pelos cotovelos. Contou todas as notícias de casa, os episódios no trem, dos acontecidos no trabalho. Foram juntos de mãos dadas ao teatro, ouvir o moço cantando romances com seu violão. Amantes incansáveis até chegar o sol, e lá se foi Leon de volta apanhar seu trem, deixando por cima da mesa um envelope e sua jura de amor eterno.
Amália tremeu quando o viu cuidadoso repousando o papel sobre a mesa. Tremeu mas não foi de gozo, dessa vez. Assim que se viu só, custou a tocar o envelope, temia uma despedida. Temia que a tão esperada carta de amor viesse com as letrinhas tortas de Leon sem ponto nem vírgula. Suspirou profundo e abriu. O papel marfim perfumado, as letras miúdas de Leon, tudo em muito bom tom. Amália não se podia mais descabelar, posto que sempre fora assim. Nem podia resmungar de ver seu sonho diante de si. Transtornou-se, perdeu-se. Amália ficou sem certeza. Calou-se, murcha. E foi ter com o mar.
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