cuidado na torre

A carta da Torre é também chamada "A Casa de Deus". A Torre representa a ligação entre o céu e a terra, um instrumento que une espírito e matéria. Nessa ligação, a mesma escada por onde desceriam os deuses é aquela em que subiriam os homens, o que supõe que ambos possam igualar-se pelo caminho. Sua imagem, no entanto, é de uma torre fulminada em seu topo por um raio. Ora, o que fazem os homens construindo torres altas para aproximar-se dos deuses? Acaso não se recordam o ocorrido com a alta e soberba Torre de Babel, que provocando a ira dos deuses sofreu o castigo da falta de entendimento entre os homens? Esqueceram-se os homens que quanto mais concentram esforços em elevar-se física e materialmente, mais estarão sujeitos à destruição e à ruína dos raios divinos?
As duas pessoas que foram arremessadas ao chão no momento em que o topo da Torre desmorona atingido por um relâmpago já não podem mais viver isoladas no refúgio que construíram para si para viverem como reis, pois não há homem que possa querer assemelhar-se a Deus sem sofrer as conseqüências da sua tentativa de grandeza. A intervenção divina destrói egos inflados; seu golpe provoca a queda do mortal, para que no chão ele possa reconhecer o princípio superior, punindo o orgulho e a prepotência daqueles que querem chegar até o céu por intermédio da matéria. Nessa situação, o consulente é convidado a perceber até onde suas resoluções para as situações externas que se apresentam não estão acabando por destruir suas próprias condições internas, e daqueles que o rodeiam. Ele é convidado a atender ao chamado do bom senso, aos conselhos amigos, pois pode estar estagnado, escravizado às idéias em que acredita como certas, sem perceber que isso possa estar aumentando suas dificuldades em todos os aspectos. A carta sugere a destruição de uma relação importante, e mostra o desastre espiritual a que o consulente está sujeito, afetado por uma ação não condizente com as necessidades do momento.
Percebe-se, contudo, que a Torre não cai. O corpo não é destruído, destrói-se apenas o topo, a coroa, abrindo a possibilidade de uma mudança verdadeira, renovando as idéias, confrontando com o homem para que ele não seja mais vítima de seu próprio orgulho e dos falsos conceitos criados que provocam a queda de suas próprias torres. O homem bem pode rebelar-se e unir forças para reconstruir o que foi destruído, encastelando-se novamente. Não terá percebido, no entanto, que aquilo que aparenta uma fatalidade pode em verdade ser sua própria libertação, a liberação das amarras passadas, derrubando a fortaleza do eu, para que a verdade brote da própria queda.
Ao notar os escombros ao redor, o homem é levado a uma reflexão acerca da Humildade, palavra que significa "filhos da terra", vinda do latim humus, o fertilizante, resultado da decomposição da matéria orgânica, do inacabado; é aquilo que reanima o inanimado, propiciando a vida.

o casamento do meu melhor amigo

Tornamo-nos bons amigos no primeiro ano de faculdade, pelos bancos de cimento, pelas mesas dos bares, pelas estradas, marés altas, marés baixas.
Curioso quando, naquela segunda-feira ao chegarmos na aula e começarmos a contar um ao outro como tinha se passado o fim-de-semana, descobrirmos que havíamos rompido no mesmo dia, sem prévio plano ou comentário anterior, com nossos parceiros.
Depois vieram outro namoricos e nossa amizade seguiu nos garrafões de vinho, nos balanços de rede à beira-mar até aquela noite enfrente ao mar do Trairí em que nos rendemos ao poder embriagante dionisíaco. Foi certeiro o tiro de Eros.
Nossas aventuras, passeios, viagens, acampamentos, pique-niques, jantares. Nossas brigas, nosso trabalho, nossas festas de família. Nossos amigos em comum, as poesias dedicadas, os muitos anos em que vivemos juntos e separados o nosso louco amor estarão sempre comigo guardados.
Diz-se que há o momento certo pra se dizer "te amo", que o Tempo é implacável, ele sempre passa. Assim foi comigo quando quis admitir o amor acreditando poder banhar-me no mesmo rio. Seus olhos aflitos disseram-me tudo, as estrelas de suas pupilas formando nova constelação. Apenas ocorreu-me o pedido: Sê feliz, meu bem, faz favor, pois a tua alegria é a minha. E assim foi, assim é nós dois, uma década passada e continuamos a compartilhar nossos momentos com amor e respeito.
Nessa manhã de um sábado à beira-mar, chorei de emoção e alegria do começo ao fim com o coração palpitante vendo-o entrar a caminho do altar com seu bebê no colo esperando poder receber sua serena mulher e as bênçãos divinas pela sua união. Não havia como não pensar que poderia ser eu ali recebendo, entregando e selando uma aliança com a promessa de amar-te e zelar por ti por toda a vida. E não há como dizer com palavras quanto sinto-me preenchida de alegria por saber que essa mulher no altar - tão linda - tem nas pupilas dos olhos aquela constelação que eu vi...
Sê feliz, meu bem, faz favor, pois a tua alegria e a da tua família é a minha. Sempre...