pedia-me insistentemente que contasse e recontasse a história de como órion virou constelação. ouvia atentamente, pedia detalhes, queria saber porque "o deus" não o trouxera de volta para o convívio de sua amada, procurava no céu o guerreiro. à medida que assimilava a história, elaborava novas questões.
num dia, pede que eu conte a história do meu órion. não a história da deusa, mas a história do meu amor. pede que eu não negue, ela já sabe que se trata de um segredo, pede que eu confie nela, e que reparta com ela esse segredo do meu amor. promete guarda-lo.
com o tempo, vou cedendo. vou pincelando minha história. que ela ouve, silenciosa.
noutro dia, pede-me para vê-lo. confio. aceito. abro um álbum de retratos e lhe aponto o meu órion. ela abre um sorriso. olha atentamente. ela diz que o seu cabelo é estranho. e me pergunta se ele não quer mais falar comigo. não, ele não quer. não, não sei porquê.
mostro as imagens do nosso namoro, os sobrinhos que tomei emprestados, nossas paisagens. vou contando. vou libertando o segredo. ela observa com um olhar de fascínio. pergunta porquê brigamos e me diz que se eu não sei se ele não gosta mais de mim, é que preciso falar com ele e saber.
ela pergunta como é a voz dele, e me pede que telefone pra ele, porque ela precisa falar-lhe.


nunca ninguém ensinou-me tanto sobre o amor.
1.
era magro, magro, só pele e osso. era magro de fome.
rachava o aluguel do cafofo com o irmão, o pagamento sempre atrasado. não tinha mesmo como colocar comida na mesa: vivia no simidão.
e ainda foi se apaixonar pela gata zona sul. trabalhadora, sim, mas zona sul também. chegava motorizada pra namorar no colchão de cima do beliche. em caso de pernoite, estando o dono do colchão de baixo em casa, dormiam na maca da sala.
mileide sempre gostara de falar alto. e das casas geminadas com seus corredores longos. o jornaleiro trazia as boas e da boa. a fumaça subia lenta ao topo das telhas de amianto da área de metro quadrado.
iam de busão pra pi. íam de busão pra todo canto. a depender do horário iam a pé. mileide gostava das caminhadas. dizia que precisava delas, pois eram a atividade física complementar mantenedora da boa saúde: sexo e caminhada. mileide tinha as coxas grossas e duras e gostava de minissaias, mas não sabia usá-las. não ligava muito. ensaiava algum recato, sem muito jeito pra coisa. os
os amigos, feito gaviões, ligavam mais. zombavam do magricela: não é mulher pro teu bico, passa a bola.

2.
no sinal, o malandro aposentado. no que ele arregala os olhos ela encontra, enfim, um dado novo e sereno, anunciado uns dias antes na porta da tabacaria do cruzamento: ele sorriu sem aquela boca de hiena com a língua pendurada pra fora. sem as molas embaraçadas do cabelo. e de óculos: a armação era preta e quadrada e era tão... tão zona sul!
"quanto tempo"! 
"nossa, quanto tempo"! 
"e que coincidência"! 
"é, que coincidência"! 
"me dá teu telefone pra gente se falar"!
sei lá, eles dois ali, um sinal prestes a abrir. aquela coisa bem corriqueira e carioca tipo passa lá em casa. só que ele ligou. em prol da união.

3.
e no porão em que a cadelinha deu cria no meio da noite...
ele não esperou nem sequer o começo da festa. sem cerimônia, sem cerveja nem petisco, sem o show da banda favorita e o calor excitante de fim de noite, o primeiro encontro começou na cama. depois foi pra sala, pro banho, pra cozinha, interrompido pelo freela da noite do rapaz, o moço esforçado trabalhava, mas também haja trabalho com aquela cria numerosa.
mileide adorava aquele porão bagunçado que ninguém nunca tinha tempo de arrumar. gostava das histórias transgressoras do artista.
mileide manteve os encontros em prol da união, mas nunca se unia. e cada vez que ele dizia vem ser a rainha do meu lar ela corria.

4.
e um dia pegou pela br, seguiu a placa até a localidade mais longínqua e foi só lá que parou. gostava muito da idéia do trono, mas diante daquele cerimonial todo achou mais fácil pegar o beco.
mais uma vez se vestiu de amores. ela subia o morro cinza de vestido surrado e chinelo, que era como ela era, mas a brancura das carnes denunciavam seu vício. ela abaixava a cabeça e descia o morro sonhando que era invisível, mas quando descia o contraste de tons das mãos enlaçadas era maior.
quanto mais subia e descia o morro, novos contrastes revelavam-se.

5.
veio, enfim, a despedida. no calor que se fazia a sós, intermináveis abraços. um diz ao outro o quanto gostou e gosta e o quanto gostariam que tivesse sido diferente, no entanto é preciso aceitar a passagem do tempo, suas mudanças e o dever de seguir sem mais amarras. sem lágrimas nos olhos, mileide o beija sorrindo. beija sua testa, beija seus olhos, beija suas bochechas quentes, beija suas mãos. lhe diz que foi lindo, lhe agradece e lhe pede: feliz vida, meu bem querido.

6.
cresce o jardim. o perfume é de jasmin.

o maior dos pesos

o mundo dá voltas.
a vida é cíclica.
aqui se faz, aqui se paga.
é a inexorável lei do eterno retorno, em que diz nietszche:

"o maior dos pesos – e se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. a perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’"

tudo volta. alterações de vírgulas, mas os mesmos pontos. observo o que volta, observo você e me surpreendo com o que vejo: não parece haver mudança em nada, exceto por um bíceps mais volumoso, o novo corte de cabelo, a barba crescida, detalhes de uma carcaça. o seu discurso dá voltas no mesmo ponto, permanecendo na primeira pessoa. a mesma rigidez de idéias usadas como um escudo de proteção. você não se abre, você não se curva, você não se entrega, e assim, você não muda.
pra que eu possa falar de você, miro o espelho: bíceps mais volumosos, cabelos crescidos, rugas na testa, detalhes de uma carcaça. como flecha, a mesma mania infeliz de manipular e transferir culpas. a mesma imprecisão da mira míope. andando sempre sem escudos e braços abertos, uma guerreira combalida.

tudo volta e torna a voltar. a vida exige concentração. se peso ou leveza, não sei. pois se acaso fossem belos ou pelo menos conscientes os nossos gestos, enquanto a existência invocasse a responsabilidade de nossos atos e consequências, não continuaríamos buscando justificativas para os nossos passos e nossa inércia, não nos precipitaríamos nem tampouco nos deixaríamos envolver pelo véu da preguiça. não estaríamos, portanto, sujeitos às instabilidades do apego aos sentidos. e aquilo que voltasse encontraria pouso e repouso, quiçá.