mapa do maravilhoso revisionado

criou cenários para a despedida. imaginou dizeres, cheiros, cores e silêncios. 
na cena ideal, carinho, toque, contato, afinidade. mais que sexo, afeto.
aproximando-se o encontro, sentindo crescer esse desejo-necessidade-vontade de afeto correndo na contramão, preparou-se para o pior: a indiferença, o descaso, o destrato. preparou-se para o frio. preparou-se para o frio, invocando as deusas afim de receber o que viesse sem dor e sem apego.

chegou o dia do encontro: uma manhã cinzenta de muita chuva. ao desembarcar, nenhum rosto familiar. só a chuva. insegura, indecisa, apanhou um táxi. mauro dirigia e tentava quebrar o silêncio com perguntas que ela respondia a contragosto: sabia, mas não muito, o que vinha fazer ali. como explicar que se chega despedindo-se? mauro matou a charada ao perguntar onde se hospedaria e ouvi-la dizer que estava a caminho da casa da ex-sogra. 
intrigado, mauro animou-se em fazer novas perguntas. tentou vasculhar a vida do ex. por que acabou, há quanto tempo, onde vivia, com quem, se casado, se também a aguardava, se encontrariam? diante de respostas vagas, mauro deu um jeito de olhá-la de frente e perguntar: e se ele pedir pra voltar?
chocada com a pergunta, ela respondeu que tudo poderia acontecer, inclusive nada. e enquanto tentava mudar de assunto, mauro ainda calculava a probabilidade disso acontecer e mudar completamente a sua vida.  você voltaria pro rio? e ela acabara de voltar ao rio. o rio que nunca é o mesmo, que não pára, que é só movimento e fluidez, mas onde ela - sem uma noção clara do fato - voltava a banhar-se.

atordoada, desceu do táxi no meio da chuva. do outro lado da rua, imediatamente avistou a ex-sogra na parada do ônibus enfrente. abraçaram-se, subiram, e ele estava lá. trocaram olhares enviesados. ela estava toda de preto. ele vestia bermuda e chinelo. abraçaram-se forte e rapidamente. as mãos dela tocaram a pele dos ombros nus dele, e ela estremeceu. manteve a pose pra não desmontar. não ali. 
mas quando, ao serem deixados a sós, ele bateu levemente na porta e pediu pra entrar/conversar, deitando ao seu lado na cama em que viveram o primeiro tempo de vida a dois no rio, o rio os banhou, e ela sentiu que voltara ao rio.
é provável que tenham falado de trabalho, família, filhos, fumo, estradas. em alguma ordem e intensidade que a emoção do momento apagou. mas fixou na memória o momento em que ele revelou o sonho acalentado de uma casa no mato onde retomariam suas vidas, juntos, não de onde haviam parado, mas de onde poderiam recomeçar. não havia mais despedida possível.

não se tocaram enquanto não se disseram tudo - o tudo que explodia neles, ali a poucos centímetros um do outro. abraçaram-se num apertado e muito longo abraço de quem não quer mais se soltar. tocaram seus lábios, beijaram-se. então seus corpos fundiram-se e os seus rios confundiram-se a caminho do (a)mar...
quilômetros de areia branca
numa cidade morta qualquer abrigando um velho cais
cajus rubros e amarelos pelos areais da restinga
do princípio do quaternário montando e desmontando a paisagem
entre a terra e o mar os costões rochosos vulcânicos
em que habitam um sem fim de organismos marinhos
mais de duzentas mil microalgas por centímetro quadrado
enroscadas nas raízes aéreas dos pequenos arbustos 
no solo escuro e lamacento dos manguezais 
refúgios e resquícios
quilombolas, sambaquis

mão e sol
balaios de oferendas bem no meio do caminho
carregados pela massa de ar tropical atlântica
brincando pelas ilhas e baías e dunas e os recifes de coral
saudando pela mata atlântica - foco ínfimo da mata
os micos, tamanduás, os sapos, capivaras, jaguatiricas
e demais refugiados abrigados por lá
até a hora certa e precisa 
de ver o samba aqui