ela disse que aprendeu cedo a ter medo. que o seu maior medo era de estupro. achava que se acontecesse não saberia como sobreviver carregando o corpo carregado da memória da violência. saía de casa rezando que não fosse o dia. chegava em casa e agradecia por ter escapado daquela vez.
na rua, irritava-se com as cantadas, as buzinas. respondia, encarava, xingava, irada. algumas vezes sentia medo e só queria achar um lugar que parecesse mais seguro. ainda menina, uma vez foi abordada no caminho da padaria por um homem que fingiu buscar informação, mas que foi dando um jeito de esticar a conversa mole. conseguiu se desvencilhar da situação, mas temeu por semanas andar sozinha nas ruas e reencontrar o homem da conversa asquerosa. passada de mão nos seios, passada de mão na buceta. enquanto colecionava constrangimentos, chegava em casa e agradecia por estar salva do pior.
ouvia histórias. ouvia muitas histórias de abuso. o tio que gostava de acariciar os peitinhos da sobrinha. a vizinha jogada no matagal depois de sequestrada na porta de casa e devorada por dois monstros metendo por todos os lados. a amiga que deixou de ser virgem enquanto gritava que o namorado não fizesse aquilo, e ele ignorava. todas pareciam ter sua triste história.
tentava imaginar-se lidando com a situação. pensava que se o enfrentasse ele a mataria, então seria melhor que ser estuprada e continuar viva. pensava que explicando ser soropositiva ele poderia recuar, mas se ele dissesse que também era?! achava que a melhor saída seria simular prazer. um psicopata estuprador provavelmente não iria querer comer uma mulher sem jeito de vítima. e enquanto traçava planos de autodefesa, ela rezava que sua história triste fosse como aquela do homem pondo o pau pra fora na parada do ônibus e só. e, ao chegar em casa, agradecia por ainda estar ilesa. até que um dia, em casa, o seu companheiro ignorou os seus claros e sonoros nãos.
naquele ponto de sua fala, fez um minuto de silêncio. com a cabeça baixa, mirava um ponto do chão. deu um longo suspiro, voltou o olhar pro meu rosto e tornou a falar.
- o meu filho dormia no quarto ao lado. o nosso filho. senti um ódio que nunca mais passou e que ainda me enche de náuseas. eu não tinha dinheiro pra ir embora com meu filho. eu não ia abandonar o meu filho. eu tentei pedir ajuda, mas com isso comecei a entender que pras pessoas violência é tapa na cara. sem tapa na cara, não há provas, e dar pro marido não é mais que obrigação. eu não tinha mais medo da rua, tinha medo da noite. a cada dia acordava com mais ódio. com mais nojo. então passei a cumprir com o que seria a minha obrigação até achar a saída do infeliz labirinto. e estou aqui, carregando esse corpo, essa fenda que os homens acham que podem cutucar. carrego esse corpo e ele parece um boneco que alguém desmontou, mas não acertou os encaixes na hora de remontar... por quê eu deixei? tenho muita mágoa de mim por isso".