aos poucos essa memória da pele vai se ofuscando, alargando a distância, cedendo espaço pra outras sensações.
com o tempo, o corpo começa a compreender, separar, distinguir, identificar o toque.
luz se apaga. se esconde. se entoca.
o espaço vão se alarga, e outras historias tomam-no.
no tempo, o tato vai percebendo as sutilezas de cada toque, as particularidades, as distinções.
e o tempo cede o coração pra outros afetos.
com o tempo, o corpo vai se entendendo com outros corpos. e sem querer, mas querendo, o coração se envolve.
e vai admitindo que sexo é bom, trepar é delicioso, mas fazer amor é muito diferente, é divino.
e assim sem querer vou querendo. sem urgência, sem ansiedade.
que algo se construa por si mesmo, esculpido pelo vento, pela água, pelo tempo. sem molde, sem modelo, sem projeção. que com amor e calor vá crescendo, vá nascendo, espontaneamente desponte.
sem promessa, sem acerto, sem contrato, sem condição.
amigos, amantes, sem máscara, sem jogo...
ainda acontece de acordar lembrando e essa lembrança doer.
ainda doem algumas canções. ainda falta e é forte.
serão longos tempos até que talvez se apague essa memória tátil que...
a vida segue.
e eu sou grata pela beleza desse amor que descascou meu casulo. que se perdeu, mas que voltou e vi de volta a vida me sendo devolvida por aquele que me levou de mim, nem a ferro nem a força, mas porque me dei.